Festival italiano exibe grátis filme rodado na Veneza que emergiu quando o mundo parou



MARIO VISCONTI


Algumas das imagens mais impactantes que rodaram o mundo durante a pandemia mostravam os efeitos do “lockdown” em Veneza: os canais que a invadem ficaram com a água clara e verde, repletos de peixes e até golfinhos nadavam ao lado das embarcações e das poucas gôndolas que ainda os navegavam. A cidade, esvaziada do turismo intenso, mostrava-se nua às câmeras dos moradores que, surpresos, não se cansavam de fotografar e filmar a cidade mais bonita que existe.


O diretor Andrea Segre aproveitou a oportunidade única para rodar WELCOME VENEZA, drama sobre dois irmãos que nasceram e vivem lá, mas com visões radicalmente opostas sobre o lugar. Nas imagens do filme, pode-se ver uma Veneza à qual, como turistas, não temos acesso.


Pois Veneza é a mais bela cidade do mundo, mas fica escondida porque, quando chegamos lá, há tanta gente que não a vemos. É como um chocolate delicioso do qual sentimos o aroma, mas que fica coberto por um papel laminado que não se desgruda e só restam duas alternativas: comer o chocolate com o papel ou abandoná-lo. Por isso, Veneza, além de ser a cidade mais bela, é também a mais caluniada.


O fascínio dessa cidade mágica formada por 118 ilhas separadas por canais e ligadas por mais de 400 pontes não deixa ninguém indiferente. Há séculos, Veneza alimenta-se do turismo, mas esta fonte de riqueza parece ter cegado os venezianos (não só eles, na Itália, infelizmente) para trabalhar o próprio futuro. O impacto do turismo gera sérios problemas de gestão numa cidade difícil de gerenciar. Como ela é rodeada pelo mar, ele cisma e a invade. O número de residentes diminui a cada ano porque a vida nela se torna cada vez mais difícil. Mercados são substituídos por lojas de bugigangas e máscaras e bares insossos que nada têm a ver com o lugar; o silêncio, inigualável de lá à noite, deixou de existir e foi substituído pelo ruído incessante das rodinhas das malas que vagueiam nas calle. As casas de boa parte dos venezianos transformaram-se em hotéis tipo b&b cuja ocupação às vezes desilude quem neles investiu, pois o turista habitualmente não fica na cidade mais que algumas horas, deixando nela mais lixo do que lucros. Há ainda os transatlânticos gigantescos dos cruzeiros que deslocam uma quantidade enorme de água e sedimentos, além de poluir. Há, claro, o turista respeitoso, que se deixa educar pela cidade, que admira, apoia, compra e vive nos ritmos dos venezianos. Trata-se de um paradoxo. Veneza é uma cidade que vive do turismo e ela está morrendo por causa dele.


WELCOME VENEZA é uma elegia a esta bela cidade que traímos. O filme de Andrea Segre conta a história do conflito entre dois irmãos que pertencem a uma linhagem de pescadores de um tipo de caranguejo comestível chamado “moeca”, no dialeto veneziano. O termo nomeia o caranguejo pequeno que duas vezes por ano tem de fazer a troca do próprio esqueleto, tornando-se vulneráveis por pouquíssimo tempo. São degustados fritos, com cabeça e tudo, passados em um pouco de farinha ou mesmo sem nada. São deliciosos quando acompanhados com o vinho branco local. Uma cena no filme mostra sua preparação. Quem captura esse caranguejo tem de ser um especialista, porque o desafio é pegá-lo na hora certa, pouco antes do processo da troca do esqueleto. Uma profissão praticamente extinta, mas que ainda é exercida por alguns poucos resistentes na região em que o filme foi rodado, nos canais na parte de trás do arquipélago da Giudecca, um conjunto de oito ilhas intercaladas com enseadas de rios e ligadas por pontes.


A Giudecca tem um enorme calçadão à beira mar e fica de frente para o centro histórico de Veneza, separada pelo canal que leva seu nome. Nela está a Chiesa del Santissimo Redentore, projetada por Andrea Palladio em 1577 para celebrar a libertação de Veneza da peste negra, conhecido ponto turístico da cidade, e de onde saem os barcos da Festa do Redentor todo terceiro domingo de julho.


WELCOME VENEZA mostra-nos a cidade pelo lado de dentro, aquela em que se vive e onde é cada vez mais impossível viver. Na Giudecca que vemos em WELCOME VENEZA, mostra-se uma beleza que vem da história e que é, ao mesmo tempo, a história de uma família. É a tradição e os valores, simbolizada pela casa, cuja propriedade é compartilhada entre os dois irmãos e que um deles reluta em ceder ao turismo. Emolduram o conflito dramático entre o Caim e o Abel venezianos, a maravilha da natureza local, a luz que só se vê lá, as cores daquele mar e daquela terra, o nascer e o pôr do sol na Giudecca. O problema denunciado pelo filme, o da total entrega da cidade ao turismo, é atual, embora esta não seja uma batalha perdida.


As iniciativas são diversas: empresas investem em barcos elétricos para o transporte público da cidade, muitos defendem a limitação do número de visitantes por dia, outros propõem percursos alternativos e menos conhecidos, e não menos interessantes. Mas resta a pergunta: quem vai a Roma, deixa de visitar o Coliseu?


WELCOME VENEZA

Diretor: Andrea Segre

Itália, 2021, 100 min


onde: 16º Festival do Cinema Italiano

 

MARIO VISCONTI é pesquisador e professor de língua e cultura italiana.

 

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