UMA NUVEM NO QUARTO DELA encontra uma estética para dizer nossa desorientação


MARCELA MEDINA


A teoria da arte, em geral, e da poesia, em particular, destaca a experiência como elemento fundamental na fruição estética. Isso significa, entre outras coisas, que o encontro poético se dá a partir de um “estar no mundo” questionado e transformado pelo impacto sofrido pelo sujeito diante da obra. O espectador participa ativamente do fazer artístico, já que os sentidos do texto (seja ele fílmico, ou não) são construídos durante o movimento do seu olhar impactado, dispensando índices claros de progressão temática e explicitações narrativas.

A cineasta Zheng Lu Xinyuan investe pesado no sentido artístico do cinema ao apresentar uma narrativa cheia de elipses e melancolia que nos obriga a um mergulho de profundidade na imensa e cinzenta cidade de Hangzhou, enquanto acompanhamos a jovem Muzi em sua volta para casa após o Ano Novo Chinês. O longa de estreia da realizadora chinesa, UMA NUVEM NO QUARTO DELA (2020), faturou o Tiger Award no Festival de Roterdã do ano passado oferecendo sequências de imagens em preto e branco, atuações e enquadramentos que emulam a Nouvelle Vague e compõem um complexo visual cheio de tédio e beleza. O filme trata da busca pessoal da protagonista por identificação em meio à frieza da paisagem urbana e das indefinições afetivas – pontuadas principalmente, mas não só, pelas figuras masculinas e pela dinâmica familiar. Muzi empreende um constante movimento de retorno: para casa, para a mãe, para o passado. Esse último, aliás, se impõe como elemento-chave da narrativa pontuando a evolução do olhar de Muzi sobre si mesma e emergindo de forma sutil, até que toma conta por completo da nossa perspectiva e da percepção que a jovem tem de si. A cena final é epifânica nesse sentido.


UMA NUVEM NO QUARTO DELA é uma experiência que se aproxima da leitura de um poema visual. Os posicionamentos de câmera, ora captando seu tema de longe, ora passeando pelos rostos e corpos como se fossem tomando vida e forma naquele momento mesmo da filmagem, motivam o olhar e sugerem a construção dos sentidos múltiplos que as imagens comportam. O efeito é poderoso e confunde, ao mesmo tempo que enternece. O que vemos? O que é real, passado ou presente? E isso importa?


Talvez a caminhada existencial de Muzi aponte para uma atualização da ideia de tempo circular que já vem sinalizada na primeira cena do filme. E a incidência do passado no presente seja apenas o sinal de uma regra: encontrar a si mesmo envolve aceitar um paradoxo. É preciso se reconhecer no passado, reencontrá-lo e acolhê-lo. E é fundamental deixá-lo ir.


UMA NUVEM NO QUARTO DELA

Diretora: Zheng Lu Xinyuan

China, 2020, 102 min



Onde ver: Supo Mungam Plus


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