UMA MULHER ALTA escolhe o silêncio para expressar a dor



MARCELA MEDINA

A filosofia do século XX apontou a Primeira Guerra Mundial como inauguração de uma “era da anti-experiência”. Se até ali a arte cumpria o papel de espaço de respiro – e podíamos sonhar e criar um mundo próprio dentro dos limites de iniquidade de um capitalismo predatório em formação -, a guerra de 1914 ofereceu à humanidade sanguinolência nunca vista, nem imaginada, provocando um tipo de trauma até então desconhecido. O trauma da guerra é a impossibilidade da verbalização de uma dor nova e aterrorizante que se mostra pela ocultação promovida pelo silêncio. Trata-se da ausência de linguagem capaz de representar aquela dor. Narrativa impossível. Diálogo, idem.

UMA MULHER ALTA entende bem a retórica do silêncio. Afinal, a Segunda Guerra acabou recentemente e o cenário é Leningrado em escombros. Lya, a mulher alta, a Varapau, como é chamada, concentra no corpo magro e comprido, enorme, o silêncio como metonímia da experiência impossível da guerra, o inassimilável que busca uma forma desesperada de evasão: é acometida por estados de ausência que duram até horas, momentos em que, totalmente alheia, muda, olhos abertos, quase imóvel, some do mundo e de suas consequências. Trauma da guerra, dizem. Estado de transtorno mental que a impossibilitou de prosseguir nas trincheiras.

Agora, Lya é enfermeira dos heróis desvalidos no hospital que recebe ex-combatentes. Kantemir Balagov nos conduz pelos corredores do hospital como quem explora os meandros da dor: são corpos mutilados, olhares vazios e a total desesperança de quem viu o impossível e teve o mau gosto de ficar vivo depois. Os diálogos são escassos. Parecem mais monólogos em que não importa se existe uma escuta. Os atores (espantosos) dizem tudo no silêncio contido das emoções, que nos casos de Lya (Viktoria Miroshnichenko) e sua amiga Masha (Vasilisa Perelygina) verberam em apoteoses físicas em momentos-limite da narrativa.

Atípico em seu gênero, UMA MULHER ALTA presentifica a guerra no silêncio dos mutilados e na opção pela sobrevivência. Nesse ponto, é um filme sobre a força feminina e sua capacidade de seguir em frente com a determinação de um tanque avançando sobre o inimigo. Não é agradável, é duro e cruel. Mas a explosão de contrastes em cores vivas surge como um alívio de beleza, quem sabe, uma declaração de amor a Lya, Masha e todas as mulheres do mundo ocupadas em sobreviver.

UMA MULHER ALTA

Diretor: Kantemir Balagov

Rússia, 2019, 137 min


onde ver: Sesc Digital [até 21/8]

 

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