UM SÓ PECADO, de Truffaut, traduz o amor com poesia e desatino


MARCELA MEDINA


“Creio que há algo de excitante no fracasso. Dá vontade de trabalhar depressa, de recomeçar.” François Truffaut disse isso quando falava sobre seu quarto longa-metragem, UM SÓ PECADO (1964), a história de um amor proibido e improvável que fracassou nas telas. Sabemos que não era bem o fracasso o combustível de Truffaut. Com 28 anos de carreira, dirigiu 25 filmes, entre longas e curtas, além de roteirizar, atuar, escrever muito e fundar a Nouvelle Vague. É até hoje um dos realizadores mais influentes da história do cinema e muita gente o considera um poeta das telas – o que não é para menos: entre os “jovens turcos”, era o que melhor sabia (e queria) contar histórias.


Truffaut falou do amor prosaico, do cotidiano e das pessoas comuns, sem os excessos idealistas do cinema clássico e composto de um material de sonho, beleza e desvario capaz de elevar o dia a dia ao patamar de mágica. É assim que nos apresenta o casal Pierre e Nicole. Ele, mergulhado em sua vida racional e controlada, cheia de compromissos e horários de pai de família, intelectual, editor bem-sucedido, não resiste ao apelo da jovem aeromoça, totalmente embevecida pela inteligência fina desse homem mais velho. Nicole surge como figura sugestiva de delicadeza perceptível nos detalhes captados pela câmera amorosa de Truffaut: ora a lenta troca de sapatos entrevista de longe, ora uma lírica sessão de fotos no campo, tudo em Nicole rompe com a atmosfera tediosa de uma rotina controlada por horários e protocolos. Pierre ama Nicole? Talvez. Porém, o que fica evidente é a ruptura que a moça representa com tudo o que é conhecido no mundo frio e racionalizado de Pierre. Nesse ponto, a inteligência do roteiro aparece na beleza do artifício do acaso, que joga com encontros e desencontros e mostra a Pierre, e a nós, que a mágica pode surgir de repente.


Pierre se agarra à mágica como recurso para um sentido maior. O rosto perfeito e intrigante de Françoise Dorléac, três anos antes de morrer aos 25, confere a Nicole o potencial de poesia e desatino capaz de puxar aquele homem sério para uma existência mais intensa, mas também pronto para cegá-lo diante da possibilidade da tragédia. E é o olhar entregue de Jean Desailly, em total alinhamento com sua própria ambiguidade frente à doçura daquela pele que o seduz e arrasta (o título original seria algo como “a pele macia”), que nos mantém comovidos e cheios de compaixão por aquele personagem vaidoso, fraco, um tanto arrogante, mas cheio de humanidade. Porque é consolador saber que na contramão da banalidade de todo dia é nos amores possíveis que o trágico e o sublime dão as caras e sinalizam ao espectador que qualquer existência é notável.

UM SÓ PECADO

Diretor: François Truffaut

França, 1964, 113 min


Onde ver: #EmCasaComSesc [até 14/10/21]



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