Transformações levaram Milão a assumir papel de capital da moda nos anos 1970


MARIO VISCONTI


“La Bambola” (escute na playlist), música que toca na abertura dos episódios de MADE IN ITALY, foi um grande sucesso de 1968 da cantora Patty Pravo, que estourou nas paradas com a canção em que se ouve: “Você brinca comigo como se eu fosse uma boneca” e “a partir de hoje, não deixo minha vida nas mãos de nenhum rapaz" A música acabou virando um autêntico hino feminista daquela época e veste a protagonista, Irene, como um modelo de grife. Inconformada com a vida que alguém escolheu para ela, decide sair de casa e virar secretária na "Appeal", revista fictícia que equivale a títulos como "Amica" ou "Vogue". Se o objetivo é independência, o trabalho na Appeal será o passaporte para a felicidade. Simples, mas corajosa, sua passagem pela redação da revista não será um desfile sem escorregões.


Criada pela produtora e roteirista Camilla Nesbitt, a série começa em Milão, no final de 1974, período em que a cidade estava convulsionada pelo terrorismo e movimentada pelos movimentos estudantil, operário e feminista.


No meio da confusão, a moda é um setor em expansão que busca se descolar da imagem de supérfluo e acessório. A construção do “made in Italy”, termo que ajudou a consolidar o prestígio da moda italiana no exterior, é muito bem explicada ao longo dos episódios, no plot que entrelaça a vida da protagonista à trajetória dos estilistas que protagonizaram o processo. Milão é vista da perspectiva da periferia, as histórias vão e vêm longe dos clichês visuais da cidade, com exceção de um ou outro plano do Duomo.


Em vez de repetir os mesmos exteriores de sempre, a série nos leva a conhecer alguns interiores muito exclusivos, como o deslumbrante espaço de exposições que a protagonista tenta entrar como penetra no desfile da estilista Krizia na Triennale de Milão. O evento reconstituído no primeiro episódio ocorreu de fato no começo de 1975 e foi o marco inaugural dos desfiles da semana da moda. A excitação da protagonista é mais que justificada. Se Irene buscava uma nova vida, Milão, por sua vez, também pretendia se impor como a capital do bom gosto.


Semanas de moda não eram novidade na Itália. Entre 1945 e 1960, com a retomada do mercado no pós-guerra, eram frequentes desfiles em Milão, Roma e Veneza, mas a primazia ainda era de Florença. Em 1951, foi promovida nesta cidade toscana a primeira semana de moda italiana para apresentar coleções a compradores americanos que se encantavam com as criações usadas nos figurinos de produções da Cinecittà. Naquele momento, se estabeleceu uma divisão de tarefas: Roma era a sede dos ateliês de alta costura, Florença ficou com a produção do vestuário em oficinas artesanais, comercializados em ateliês exclusivos, e Milão e Turim começaram a produzir o chamado “prêt-à-porter”. Ainda em 1956, 80% das roupas que os italianos vestiam eram feitas sob medida, e isso valia tanto para o diretor de uma empresa como para um operário.


Os principais fatores da mudança foram o boom econômico, e, mais tarde, a disseminação de valores disparada pelo movimento estudantil. Entre as duas etapas, Milão se tornou sede de três das principais editoras italianas, Rusconi, Mondadori e Rizzoli. Concomitantemente, a moda conquistou o status de indústria cultural, um meio termo entre empresa manufatureira clássica e indústria intelectual. E a cidade concentrava poder midiático para promovê-la.


É explícita a semelhança entre a série e o filme O DIABO VESTE PRADA, mas isto funciona mais como isca. Greta Ferro, que interpreta Irene, é uma atriz estreante e foi modelo de Giorgio Armani. A maison dele, assim como a de Valentino, Missoni, Krizia, Versace, Ferrè e de outros estilistas citados têm na série uma maravilhosa vitrine. O figurino é composto com originais da época, de modo que assistir a MADE IN ITALY é viajar numa Itália que, sim, existiu.


MADE IN ITALY

Itália, 2019


onde: HBO Max

 

MARIO VISCONTI é pesquisador e professor de língua e cultura italiana.

 

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