Tarkovski indaga sobre o lugar da beleza num mundo de horrores



CÁSSIO STARLING CARLOS


ANDREI RUBLEV destoa de todas as vidas de artista já levadas ao cinema. No lugar da habitual progressão dramática e das cenas que tentam dar concretude à ideia de genialidade mostrando a criação de uma obra, Andrei Tarkovski escolheu mostrar o personagem vagando em meio a horrores, testemunhando perseguições, dominações e crueldades e, como reação, renegando seu talento para embelezar o mundo.


Uma das razões pelas quais o diretor escolheu o pintor de ícones Andrei Rublev, além da importância histórica do personagem, foi porque se sabe muito pouco de sua biografia. O conhecimento lacunar ofereceria, portanto, maior liberdade à imaginação e permitiria representar o presente sob um modo alegórico em vez de se referir apenas ao passado.


As lacunas justificam também a construção descosturada da história, feita mais de blocos que de progressão convencional, ordenada numa sucessão de oito episódios complementados por um prólogo e um epílogo.


O prólogo mostra o esforço de um indivíduo para voar num balão. O movimento da cena oferece um primeiro exemplo de como Tarkovski explora a percepção visual para sobrepor a uma camada sensorial, física outra, simbólica, religiosa. A ascensão, sentida como liberação, ascensão ao céu, transforma-se em seguida em declínio, queda e morte e prenuncia a parábola a que vamos assistir.


Ao longo de oito épocas, não se trata de resumir a trajetória de Andrei Rublev como passos progressivos. Tarkovski se interessa menos pelo indivíduo e mais pelo que ele testemunha, a indiferença, a intolerância e as formas de violência que atravessam seu caminho e passam ao primeiro plano.


O filme também não se reduz à simples correspondência entre Andrei Tarkovski e Andrei Rublev, de projeções entre o cineasta que começava ali a construir uma obra de altíssimo teor espiritual e seu modelo, cuja arte ilumina há séculos as catedrais russas. Em torno do pintor medieval, Kirill, o bufão, Theophanes, os aprendizes e Boris são outros exemplos de personagens-artistas por meio dos quais o filme questiona outros tipos de comprometimento dos homens com o ato de criar.


Assim, ANDREI RUBLEV constrói ao modo de parábola uma reflexão sobre o papel do artista e mais que isso, sobre o sentido da beleza diante dos horrores do mundo.


ANDREI RUBLEV

Diretor: Andrei Tarkovski

União Soviética, 1966, 175 min

Onde ver: CPC-UMES Filmes [até 6/6, às 19h]


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