SEX APPEAL, minissérie dos anos 1990, incorporou temática e estética LGBTQIA+


LUFE STEFFEN


O mundo da moda sempre teve uma ligação direta com o universo gay (ou queer, ou LGBTQIA+, enfim). Profissionais influentes desse universo, e que ajudaram a construir sua badalada indústria, sempre deixaram claras suas sexualidades e identidades de gênero. Não seria absurdo dizer que a moda para as massas é pensada, criada e distribuída por formadores de opinião LGBTs – mesmo que o público consumidor na maior parte das vezes nem perceba isso.


Diante dessa conexão torna-se impossível criar um filme, série, novela, livro situado no mundo da moda sem representar elementos da cultura queer. De novo – mesmo que o público que vai consumir tais produtos não tenha consciência desses elementos.


Assim chegamos ao tema da primeira Bixórdia de 2022: SEX APPEAL, quase esquecida minissérie produzida pela TV Globo e exibida originalmente em junho de 1993. O pano de fundo da série é exatamente o mundo fashion, portanto estão lá alguns ícones queer do assunto, mas ainda tem mais: a série consegue exibir o que poderíamos chamar de “estética queer” – ou seja, mesmo que o foco da narrativa não esteja na cultura gay, esta vaza o tempo todo, na trilha sonora, nos figurinos e penteados, na direção de arte, por toda parte; até na montagem, que utiliza como transições de cenas alguns slides das modelos super produzidas, como num editorial de moda.


Talvez esse fenômeno se deva inicialmente ao criador do projeto: Antônio Calmon. Nascido em 1945 em Manaus, Calmon iniciou a carreira no cinema como assistente de ninguém menos que Glauber Rocha, no clássico TERRA EM TRANSE, de 1967. Logo passou a dirigir uma série de longas na década de 1970 – foram 12, os 2 últimos já na década de 1980. Em toda a sua filmografia no cinema, Calmon sempre incluiu personagens e temáticas LGBTs, numa era pré-politicamente correta. Quando migrou para a TV, Calmon aprofundou sua obsessão pela cultura pop e criou a antológica série ARMAÇÃO ILIMITADA (exibida entre 1985 e 1988 na TV Globo), que liquidificava referências de cinema, videoclipes, HQs, desenhos animados, graffitis - exalando, aqui e ali, referências gays.


Essa criatividade sem limites foi de certa forma “domesticada” para que Calmon se tornasse autor de novelas da Globo. E assim nasceram as novelas TOP MODEL (1989/90) e VAMP (1991/92), que ainda assim eram recheadas de citações cinematográficas e ficaram inseridas no mundo da cultura pop. O ápice dessa trajetória um tanto “tarantinesca” de Calmon é justamente o trabalho seguinte na TV: a minissérie SEX APPEAL (1993), em 20 capítulos. Depois disso ainda teve a novela OLHO NO OLHO (1993/94), que mantinha essa fórmula; já as novelas posteriores do autor foram abandonando a efervescência pop e se acomodando num esquema mais padrão da teledramaturgia brasileira.


Então, SEX APPEAL, que a Globoplay acaba de disponibilizar, quase 30 anos depois de sua exibição original, traz como atrativo esse caldeirão pop que retrata o mundo da moda naquele momento, e automaticamente exibe tintas queer. A trama é o que menos importa: a paulistana agência de modelos Sex Appeal está lançando um concurso para eleger a nova top model símbolo da agência, e para isso recruta garotas adolescentes Brasil afora – elas serão as finalistas do concurso nacional. Ao redor das 6 meninas gravitam as diversas mini-tramas.


A principal delas é uma trama policial: a jovem modelo Angel (Luana Piovani), sempre acompanhada por sua “mãe de miss”, Margarida (Elizabeth Savalla), está sendo observada e perseguida por um sinistro maníaco (interpretado por Dennis Carvalho), que na verdade – spoiler inevitável, mesmo porque a série não se preocupa em esconder a revelação – é ex-padastro da garota, ex-marido de Margarida. Dado como morto, ele retorna com outra cara após uma plástica (!) para se vingar.


O personagem gay central da série também está ligado a essa trama policial: o fotógrafo Caio (Otávio Augusto) é um gay quarentão afeminado, melhor amigo de Margarida, protetor de Angel e envolvido no suposto sumiço do tal homem. Discretamente a série mostra um pouco da típica cultura gay paulistana do início dos anos 90: Caio freqüenta um bar gay masculino, onde lança olhares e recebe paqueras de garotões. Noutro momento, ele perambula de carro pela região do Parque Trianon, onde observa rapazes de programa – aliás a série tem cenas externas históricas de registro da cidade de São Paulo de quase 30 anos atrás. Outro gay afeminado da trama é o cabeleireiro Sinval (Luís Salém).


A questão lésbica também é pincelada. A arrivista Eva (Danielle Winits), maquiavélica garota que busca se tornar top model a qualquer preço, inicia um jogo de sedução tentando conquistar o apoio de Jacqueline (Ester Góes), poderosa editora de uma revista de moda. Jacqueline representa um dos estereótipos do universo da moda: chique, glamourosa, mas infeliz – quarentona, acaba de ser descartada pelo marido, que a trocou por uma jovem secretária. A série insinua o flerte entre Eva e Jacqueline, mas tudo indica que nada se concretizou entre as duas personagens.


Outro elemento típico do mundo da moda e da cultura gay é a existência das “mulheres viadas” – são as personagens over, espalhafatosas, que se destacam pelo glamour sofisticado ou pelo histrionismo caricato. No primeiro exemplo, a personagem Vicky, representante da Sex Appeal em Nova York (Betty Lago, ela própria ex-modelo de sucesso, e que em 1993 dava os primeiros passos como atriz); no segundo, a colunista de fofocas Cuca Stravinsky (vivida pela sempre hilariante Grace Gianoukas).


O homoerotismo também marca presença na série. Os personagens de Nico Puig, Lui Mendes e Supla (!!) são lutadores de boxe, o que permite exibir seus corpos seminus suados, e no caso de Nico Puig um atrevimento extra: uma cena de nudez no chuveiro logo no segundo capítulo. Numa sequência mais brincalhona o jovem inconsequente Alfredo (Ariel Borghi) desfila só de cueca, tocando guitarra, delirando como se estivesse num show de rock. São exemplos de como a cultura mainstream pode furar a resistência de espectadores conservadores e passar alguma informação erótica de forma quase despretensiosa. Hoje não é mais necessária tal sutileza – a recente VERDADES SECRETAS 2 escancarou sexo e nudez (inclusive gay) de forma despudorada.


Aliás, falando em VERDADES SECRETAS. A primeira parte desta novela (exibida em 2015) e a segunda (lançada em 2021), ambas escritas por Walcyr Carrasco, trazem como protagonista a jovem modelo Angel (Camila Queiroz). Na primeira parte, um triângulo se configura entre Angel, sua mãe e seu padastro. Curioso perceber as semelhanças entre VERDADES SECRETAS e SEX APPEAL: o triângulo familiar (sempre na linha de “Lolita”) e o nome da personagem protagonista.


Mas, enquanto as VERDADES SECRETAS se levam muito a sério e pesam a mão nas tintas dramáticas e nas sequências de sexo, SEX APPEAL ressurge agora numa direção contrária – leve, divertida, ingênua em diversos momentos, ultrapassada até. Mas por isso mesmo tão fascinante. É o “guilty pleasure” de saborear um prato trash, que pode até ser meio cafona, mas é irresistível. Afinal, como canta a música de abertura da série: “Todo amor é bom...”


SEX APPEAL

(Brasil, 1993)

Criador: Antônio Calmon

Escrita por Antônio Calmon, Lílian Garcia, Patrícia Travassos, Vinícius Vianna

Diretores: Ricardo Waddington e Ary Coslov


Onde: Globoplay