Sérgio Mamberti inseriu a bichice na avalanche de provocações d'O BANDIDO



LUFE STEFFEN


“Quem sou eu?”


Essa é a pergunta que a voz de Paulo Villaça faz, recorrentemente, durante o filme O BANDIDO DA LUZ VERMELHA. O impacto dessa indagação até hoje faz sentido. Num mundo e num Brasil cada vez mais bizarros, cada vez menos temos noção de quem somos nós. E no meio disso tudo, mais um grande ator brasileiro vai embora: Sérgio Mamberti (1939-2021).


Em O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, Mamberti faz uma rápida porém marcante aparição. A certa altura, ele surge desfilando desvairado diante do Teatro Municipal de São Paulo, em frente à então famosa loja Mappin, carregando um cãozinho e desmunhecando pra valer. Logo de cara percebemos que estamos diante de um personagem gay.


O personagem vivido por Mamberti chama um táxi, o carro atende e ele entra no veículo. Durante o trajeto, a alucinada bicha passa a comentar uma receita de pudim de maracujá, além de pedir pressa ao motorista, pois precisa chegar logo em casa para “enrolar o cabelo” para uma “festa hippie” de logo mais à noite. De repente descobrimos que o motorista do táxi é o próprio Luz (Villaça), protagonista do filme, que se interessa pela receita e pergunta se leva leite de côco. Ao que a bicha responde: “Muito leite de côco! Muito leite de côco!”


A personagem é simpática e faz parte da galeria de tipos caricatos que habitam O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, compondo um tresloucado painel da cidade de São Paulo há mais de 50 anos atrás. Dentro da anarquia do filme, que dinamitou diversos tabus do cinema brasileiro da época (desafiando a “religião” chamada Cinema Novo e deflagrando o movimento do Cinema Marginal), a figura exagerada que Mamberti criou permanece como um momento marcante da projeção, a tal que ponto que continua sendo referência quando se trata de pesquisar sobre “bichas”: recentemente, o ator Paulo Betti comentou que se inspirou nessa microcena e no efêmero personagem de Mamberti no filme para compor o ácido jornalista de fofocas Téo Pereira, uma bicha malvada e venenosa, no ar na TV Globo na reprise da novela “Império” (2014/15).


O interessante também é que tanto o Cinema Novo como o Cinema Marginal sempre representaram personagens LGBTs dentro de chaves polêmicas: na linha cômica, como é o caso do passageiro do táxi, ou na linha doentia e perturbada, como as duas moças vividas por Márcia Rodrigues e Renata Sorrah em MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA (Júlio Bressane, 1969). Claro que não havia, na época, preocupação alguma com representações éticas ou mais humanistas, que escapassem da caricatura ou da superficialidade.


Mas arrisco dizer que, no caso de O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, a “bichice” vai muito além da presença da personagem vivida por Mamberti. Por toda parte, ao longo do filme, somos surpreendidos com ícones eróticos e sexuais, numa avalanche de provocações que, vistas hoje, podem inserir o filme dentro da classificação “queer”. Algumas cenas de Luz sem camisa soam um tanto homoeróticas, e a interpretação de Villaça é sempre maravilhosamente ambígua. O mesmo vale para sua partner, a andrógina Janete Jane, vivida por Helena Ignez. O erotismo impregna o filme, desde cenas mais óbvias, como a moça que dança nua com uma serpente num inferninho, até momentos em que a potência sexual é latente e por isso mesmo mais forte.


O BANDIDO DA LUZ VERMELHA é um desses raros filmes que está sempre reinventando seu próprio impacto. E viva Sérgio Mamberti!


O BANDIDO DA LUZ VERMELHA

Diretor: Rogério Sganzerla

Brasil, 1968, 92 min


onde ver: Looke

 

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