REVOLTA DOS MALÊS atualiza a luta contra a escravidão por meio de uma estética política



MARCELA MEDINA


Malês é a forma como eram nomeados os negros muçulmanos que habitavam a Bahia e protagonizaram o levante conhecido como Revolta dos Malês. A insurreição ocorreu entre os dias 24 e 25 de janeiro de 1835. Durou apenas seis horas, mas foi sangrenta e abrangente o suficiente para se tornar um dos marcos da resistência ao sistema escravocrata pelos negros escravizados. Só isso bastaria para conferir a REVOLTA DOS MALÊS (2020) uma importância danada. No entanto, o filme de Belisario Franca e Jeferson De é muito mais.


Concebido como minissérie ficcional, REVOLTA DOS MALÊS sofreu adaptação para formato “pocket”, em que seus 130 minutos originais se transformaram em concisos 80, concentrando a atenção nas ações que potencializam a história narrada. Dá-se, então, um eficiente cruzamento entre o fato histórico e o apelo de um arco dramático que convoca a refletir sobre questões fundamentais da experiência contemporânea, como o protagonismo feminino e a maternidade. Isso acontece sem esvaziamento do discurso histórico, já que a inteligência do roteiro propõe uma imersão no mundo muçulmano de Salvador e, ao mesmo tempo, centraliza a condução da narrativa em uma mulher, Guilhermina, negra forra que luta pela liberdade de sua filha pré-adolescente. Teresa, a filha, tem onze anos, estando prestes a menstruar, e Guilhermina tentará de todas as formas livrá-la do destino que era comum às escravas dentro de um regime não apenas racista, mas também misógino.


Há quem critique os realizadores por utilizarem “floreios” que comprometeriam a veracidade dos fatos e o valor da obra como veículo de afirmação da ancestralidade negra. Afinal, Jeferson De foi explícito ao afirmar que tinha intenção de falar sobre vencedores, sobre agentes do próprio destino que são solapados em narrativas oficiais, e isso não combinaria com algumas soluções ficcionais apresentadas no longa. O fato é que, ao optar pela perspectiva feminina e pelas exigências de seus desdobramentos, a dupla de diretores faz muito mais do que chamar a História a dialogar com o presente. Guilhermina (Shirley Cruz, impressionante, gigantesca) emula Luísa Mahin, figura mítica do imaginário negro e apresentada como mãe de Luiz Gama pelo próprio. Versões de sua história afirmam que foi uma das principais articuladoras da Revolta dos Malês.


Pelo sim, pelo não, REVOLTA DOS MALÊS envereda pela História através de um simbolismo que conjura a força de uma coletividade. Basta observar o apuro plástico que ultrapassa a estética e se afirma como saída ética e política: os personagens brancos são vislumbrados nas sombras, sem que seus traços sejam vistos pelo espectador, enquanto os negros assumem as cenas como pontos de onde emana a luz. As escolhas temáticas, por sua vez, enchem de contundência uma narrativa já complexa e entregam uma obra de orgulho negro e protagonismo de raiz significativamente diferente de muitos filmes que se pretendem antirracistas, mas sustentam o discurso do colonizador. Os tempos de urgência em que vivemos exigem filmes assim, que entendem o desserviço da arte que é só estética, ou, no polo oposto, apenas panfleto.


REVOLTA DOS MALÊS

Diretores: Belisario França e Jefferson De

Brasil, 2019, 80 min


Onde ver: Festival Estação Virtual



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