Recine exibe obra brasileira do argentino Carlos Hugo Christensen


LUFE STEFFEN


Um diretor argentino que virou cineasta brasileiro. Assim foi Carlos Hugo Christensen (1914-1999), que já tinha uma carreira sólida no cinema da Argentina, tendo dirigido inúmeros longas entre 1939 e 1953, quando migrou para o Brasil.


Uma boa chance de conhecer ou rever a obra de Christensen surge agora com a Mostra Recine, que exibe uma retrospectiva com 11 filmes da filmografia de Christensen, incluindo os 4 longas que trazem questões gays.

A trajetória de Christensen no cinema brasileiro começa em 1954, com MÃOS SANGRENTAS, e se desenvolve rapidamente nas décadas de 1950 e 1960. Em meados desta que seu trabalho deu uma virada estética e temática.


Depois de dirigir dramas clássicos e sofisticadas comédias de costumes, além de dois filmes-crônica de declaração amorosa ao Rio de Janeiro, Christensen surge com o poético e delicado VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA (1964), adaptação de um conto do escritor Aníbal Machado, que tinha morrido naquele ano. O filme abre uma nova fase no cinema de Christensen, que se aprofunda no longa seguinte: o mitológico O MENINO E O VENTO (1967), também baseado num conto de Machado – que jea destacamos aqui na Bixórdia. É neste filme que surge a curiosa incursão pelo universo gay na obra de Christensen.


O conto “O Iniciado do Vento” esboçava muito sutilmente uma possível relação amorosa entre um jovem engenheiro e um garoto humilde, adolescente. O filme de Christensen ousa mais e praticamente escancara a paixão entre os dois personagens. Essa relação entre um homem mais velho e um rapaz voltará, em outra chave, noutro filme de Christensen: o thriller policial ANJOS E DEMÔNIOS (1970), uma de suas obras-primas.


Ali, um dos três protagonistas é o perigoso delinquente juvenil interpretado por Luís Fernando Ianelli (que vivera o garoto Zeca da Curva em O MENINO E O VENTO), envolvido com uma jovem burguesa também perigosa, vivida por Eva Christian. O casal trama a morte do milionário tio da garota, e para isso usa o advogado (Geraldo Del Rey) da família, devidamente seduzido pela lolita. Mas o imoral rapaz, nas horas vagas, descola uma grana extra explorando um personagem gay – um homem na casa dos trinta anos, que vive sozinho num apartamento, interpretado por Fernando de Almeida. O rapaz vai para a cama com o tal homem, em troca de dinheiro e outras vantagens. O personagem gay, sempre fascinado pelo rapaz, cede aos caprichos dele, mesmo sabendo que está sendo usado.


Essa relação de troca surge mais uma vez, em outro suspense policial dirigido por Christensen: A MORTE TRANSPARENTE (1978), um filme pop realizado no auge da cultura disco. Aqui, temos um outro garotão, Beto (vivido com surpreendente espontaneidade por Wagner Montes), que apesar das tendências criminosas, é um rapaz ingênuo e desastrado, quase desprovido de inteligência. Ele também vai para a cama com um homem mais velho, Ramiro, vivido novamente por Fernando de Almeida – o ator quase repete o personagem de ANJOS E DEMÔNIOS, com algumas diferenças. Ramiro é um fotógrafo, um tipo mais vivo e sarcástico, que aceita a troca pois é apaixonado por Beto, mas não chega a ser exatamente explorado. Às vezes dá dinheiro ao rapaz, mas o principal é que está sempre à disposição do moço, como um amigo confidente que dá apoio ao jovem desnorteado. Este, por sua vez, nunca admite que tem algum tipo de prazer ao se relacionar com o amigo – e claro, se considera um “mulherengo”, sempre apaixonado pela mulher fatal do filme, Marlene, vivida por Bibi Vogel.


São curiosas, um tanto sórdidas, essas relações de interesse envolvendo as práticas sexuais desses personagens masculinos nos dois filmes. Logo depois de A MORTE TRANSPARENTE, Christensen vira a chave e retorna à delicadeza poética de O MENINO E O VENTO, realizando A INTRUSA (1979). Aqui, o cineasta adapta um microconto de seu conterrâneo Jorge Luís Borges. O filme mostra a intensa amizade de dois irmãos, boiadeiros vivendo na fronteira entre o Brasil e a Argentina no final do século XIX. Os rústicos homens (encarnados por José de Abreu e Arlindo Barreto) passam a dividir a mesma mulher (a intrusa do título, vivida por Maria Zilda), que é quase um objeto para eles – é usada para fazer comida, cuidar da casa e satisfazer os instintos sexuais dos machos. Mas a relação a três vai revelar que o lance é mesmo entre os dois irmãos – uma paixão recalcada que o filme vai mostrando aos poucos, fornecendo pequenas (mas certeiras) pistas.


Assim, empilhando os tabus da homossexualidade e do incesto, Christensen compõe um belo filme, forte e marcante, mas reza a lenda que Borges teria rejeitado a obra (talvez por não concordar com o tema gay?). A INTRUSA foi a despedida de Christensen ao cinema brasileiro. Ele voltou para a Argentina, onde rodou em 1982 o filme SOMOS? (que apesar do título nada tem a ver com questões gays) e depois acabou não mais concretizando novos trabalhos. Existiu o projeto de A CASA DE AÇÚCAR, no Brasil de 1996, que chegou a ser parcialmente filmado, mas ficou inacabado. O cineasta morreu em 1999, aos 85 anos, no Rio de Janeiro.


A obra de Christensen em terras brasileiras até hoje é pouco estudada, analisada e valorizada. Uma injustiça com um grande cineasta de muita personalidade, que nunca se aliou a nenhum movimento – não pertenceu ao cinema novo, não compactuou com a pornochanchada, manteve-se à margem, de certa forma (apesar de muitos de seus filmes terem alcançado sucesso nas bilheterias). Talvez por isso esteja até hoje mergulhado num certo obscurantismo. Mas quem ousa conhecer a obra do diretor fica impressionado com o alto nível de seus filmes – vale dizer que, além da temática homossexual, ele também desenvolveu um curioso trabalho no universo do horror: ENIGMA PARA DEMÔNIOS (1974) e A MULHER DO DESEJO (1975) são obras-primas do terror brasileiro, filmes belíssimos e também a serem redescobertos.


Assista aos filmes de Christensen já disponíveis no Recine 2021:


MEUS AMORES NO RIO (1959)


AMOR PARA TRÊS (1960)


CRÔNICA DA CIDADE AMADA (1965)


O MENINO E O VENTO (1967)


ANJOS E DEMÔNIOS (1970)


A MULHER DO DESEJO (1975)


ENIGMA PARA DEMÔNIOS (1975)


VIAGEM AOS SEIOS DE DUÍLIA (1965)


UMA PANTERA EM MINHA CAMA (1971)


A INTRUSA (1979)