O PROCESSO DO DESEJO desafia os limites das condenações morais


MARCELA MEDINA


Existem, pelo menos, duas formas de ver O PROCESSO DO DESEJO. Na primeira, destaca-se o conteúdo machista e conivente com a violência sexual, perpetrada com a brutalidade da força física ou com a sutileza da manipulação psicológica. Nesse caso, é aceitável fazer um julgamento peremptório do filme de Marco Bellocchio e repudiar uma ideologia machista que defende a violação como satisfação de um “desejo” feminino de prazer, exposto em comportamento provocante da própria vítima. Porém, é possível também lembrar que cinema é sempre arte, ou seja, é um espaço discursivo cuja linguagem oferece dados humanos de realidade a partir de tensões, incitando o espectador a leituras que o aproximem de seus limites, de seus desvãos - mesmo que tais limites e desvãos coloquem em cena atitudes e percepções da realidade condenadas pela moral, pela lei e pelo bom-senso. E essa seria outra forma de ver o filme que faturou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim de 1991.


O título original, LA CONDANNA (A Condenação), aponta para um caminho sem saída: o desejo que move a existência, se levado a cabo, resultará na condenação (da sociedade e da lei); se condenado pelo próprio desejante e, assim, reprimido, lhe trará a angústia de saber-se incompleto e medíocre. O filme de Bellocchio propõe, então, uma discussão psicanalítica em que a abertura para o desejo é vista como determinação de caráter sob um prisma muito mais filosófico do que objetivo. Questões psicológicas (e psiquiátricas) que já frequentavam seu cinema desde a estreia com DE PUNHOS CERRADOS (1965), agora se amplificam. O que era restrito a transtornos de comportamento na crônica familiar realista do primeiro filme, torna-se um estudo sobre o inconsciente e a forma como emoções e atos são por ele determinados. Nesse sentido, O PROCESSO DO DESEJO foge da narrativa convencional e tende ao surreal, como na sessão de análise, em que a fala não segue uma lógica perceptível à primeira vista. Por isso, o enredo monstruoso no qual uma mulher trancafiada em um castelo é vítima de sórdida manipulação até fazer sexo com o homem que a mantém prisioneira pode ser recebido como provocação à capacidade de questionar verdades absolutas sobre as quais erigimos nossa tranquilidade civilizada. Ao mesmo tempo, precisa ser compreendido como alegoria e convite a um pensamento vigoroso, que outrora praticamos e do qual parece que estamos nos afastando a cada dia.


Aqui cabe uma observação. Em um momento de destruição do pensamento, sucateamento dos aparelhos de cultura, apagamento da memória e progressivo combate à inteligência, é necessário preservar a capacidade de pensar além da superfície. No caso do filme de Bellocchio, a superfície vem em planos que intercalam obras de arte e rostos expressivos. Fotografia e música complementam o apelo elegante e sensual das imagens, mas isso é apenas a moldura que convida a um salto bem mais profundo: o desafio de olhar através da beleza para um ponto escuro como um castelo à noite. Essa escuridão nos engole como o castelo engoliu Sandra, mas talvez esteja dentro de nós. O PROCESSO DO DESEJO é um exemplo de por que a arte atravessa o tempo: porque propõe o exercício do diálogo no espaço incômodo de uma paixão estética.


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