O MUNDO DE GLORIA reúne o precariado de todo o mundo



MARCELA MEDINA


Sic transit gloria mundi é uma expressão latina traduzida por “assim transita a glória do mundo”. É uma forma de sinalizar que toda glória é transitória e valores como sucesso e poder, bem como estados de alegria, por exemplo, não deveriam seduzir ninguém, já que tudo passa. Ciente desse fato, Daniel (Gérard Meylan) encontrou uma forma de congelar o tempo. Durante os anos que passou na cadeia, preencheu um pequeno caderno com haikais, para driblar a sensação de que o tempo é inesgotável. Cumprida a pena, ele pode ver o efeito concreto da passagem do tempo: a mulher da juventude, que precisou esquecê-lo para sobreviver; a filha que não conheceu e tem por pai um outro homem; a neta que empresta seu nome ao título em português de GLORIA MUNDI – O MUNDO DE GLORIA.


O MUNDO DE GLORIA começa em meio à agitação otimista dos nascimentos. Ali na maternidade, todos à sua volta, Gloria representa a centelha de esperança que acompanha os recomeços, naquele momento em que avós e tios brindam à possibilidade de sonhar com dias melhores. Porém, sic transit gloria mundi é a epígrafe do filme de Robert Guédiguian, e o que parece um instante de ternura e afeto é só um instante mesmo. O mundo de Gloria é a França da classe trabalhadora extenuada, do subemprego e dos imigrantes, ora miseráveis, ora sofrendo em condições precárias de trabalho. É também a França dos aproveitadores, cujo cinismo enriquece explorando a pobreza, já que “se não fizermos, outros farão”.


A França que recebe Gloria é um microcosmo da sociedade neoliberal - sua família é o espelho. Lá, o oportunismo dos aproveitadores, as atitudes impensadas dos desesperados e inúmeras formas de frivolidade e violência moral coexistem com o acolhimento, a generosidade e a tenacidade de quem não pode desistir. Sylvie, avó de Gloria (Ariane Ascaride, melhor atriz no Festival de Veneza de 2019), e Daniel, cada um a seu modo, são responsáveis por manter a roda do mundo (e da família) girando, à revelia de seu próprio benefício. Ou, talvez, em nome de uma perenidade que se encontra além das crueldades do cotidiano. Uma perenidade hipotética que precisa estar lá, para que as coisas façam algum sentido... já que tudo passa.


O MUNDO DE GLORIA

Diretor: Robert Guédiguian

França/Itália, 2019, 106 min


Onde ver: