O MENINO E O VENTO subverteu regras por meio de simbolismo potente



LUFE STEFFEN


Atualmente toda uma nova geração está descobrindo, perplexa, a existência do filme O MENINO E O VENTO, de 1967. E a principal pergunta é: como o filme foi liberado para exibição em plena ditadura militar, apenas um ano antes do decreto do AI-5?


Talvez a resposta esteja no tom fabuloso adotado pelo grande diretor Carlos Hugo Christensen (1914-1999). Argentino, já com uma extensa carreira como cineasta em sua terra natal, Christensen migrou para o Brasil nos anos 1950 e passou a dirigir aqui, tornando-se um dos mais peculiares cineastas “brasileiros”, dono de uma obra única. Nos anos 1960 ele envereda por um cinema meio mitológico, poético, que flerta com o realismo fantástico (no auge na época graças à literatura latino-americana). E é esse tom de fantasia, de sonho e de delírio que acaba disfarçando o potencial subversivo de O MENINO E O VENTO.


O filme baseia-se no conto “O Iniciado do Vento”, do famoso escritor Aníbal Machado, um dos principais contistas brasileiros do século XX. Mas o que no conto era apenas sugerido sutilmente, no filme torna-se um pouco mais claro: o hipotético romance entre o jovem engenheiro José Roberto (Ênio Gonçalves) e o garoto pobre Zeca da Curva (Luís Fernando Ianelli).


Os dois se conhecem numa cidade mineira onde venta muito. Logo Zeca da Curva revela sua estranha e misteriosa relação com o vento. A amizade dos dois se fortalece, ligada pela paixão ao vento, e os dois passam a sair juntos para “ver e sentir o vento” – o que acaba virando uma metáfora para o desejo erótico, a paixão selvagem e o amor instintivo, talvez? Na reta final da trama, a mãe e a avó de Zeca o trancam em casa, proibindo-o de ir encontrar o vento...


A intensa relação entre os dois personagens masculinos é explicitada pelo trabalho de câmera do filme, além de alguns tempos e suspensões de diálogos, criando um clima romântico e de sexualidade latente. Tudo narrado em flashback, já que o filme se inicia quando José Roberto está retornando à tal cidade para responder a um processo – é acusado de ter assassinado o garoto, que está desaparecido.


A cidade revela toda sua carga de preconceito e homofobia, e José Roberto se vê como uma presa numa armadilha, solitário – a dona do hotel, apaixonada por ele e frustrada em suas intenções, se vinga jogando lenha na fogueira da suspeita do crime; um rapaz local o procura para revelar que é gay e faz uma proposta, uma troca; o advogado de defesa mostra-se sórdido; e assim por diante.


Mas o depoimento final do protagonista no tribunal público, carregado de simbolismos sobre o direito de ser o que é e viver seus desejos, é o clímax épico do filme, levando a um desfecho impactante onde a cidade enfim será castigada e o mistério – talvez – revelado.


O MENINO E O VENTO passou décadas esquecido dentro da cinematografia nacional. Mas a força de seu subtexto fez com que se transformasse na capa do livro “A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro” (Antônio Moreno, 2001). Uma das imagens mais emblemáticas do filme é a foto de capa desta publicação pioneira ao analisar a presença de personagens LGBTs desde os primórdios até aquele momento.


Seu autor, o pesquisador e professor de cinema Antônio Moreno, acaba de falecer neste início de junho de 2021. Além de deixar esta obra, pedra fundamental na pesquisa da temática, Moreno desenvolveu também um trabalho importante no cinema de animação – seu livro “A Experiência Brasileira no Cinema de Animação”, de 1978, é item raro e caro nos brechós virtuais.


Christensen ainda tocou no assunto gay em outros filmes: ANJOS E DEMÔNIOS (1970), A MORTE TRANSPARENTE (1978) e A INTRUSA (1979). Mas sua grande obra-prima ficou sendo mesmo O MENINO E O VENTO, um filme belíssimo com uma fotografia deslumbrante em preto-e-branco. De quebra, foi pioneiro também ao mostrar o primeiro nu frontal masculino em nosso cinema – na sequência final, quando Zeca se desnuda para o vento. Essa particularidade é impossível de ser vista nas cópias escuras e envelhecidas disponíveis. Mas há poucos anos a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, produziu uma cópia nova em 35mm a partir do original, e a exibiu numa sessão pública – ali, tudo foi visto e a fotografia do filme foi desfrutada em toda sua plenitude, seus contrastes e tons originais.


Assim, mais de 50 anos depois de seu lançamento, O MENINO E O VENTO detém o título de primeiro longa-metragem brasileiro que colocou no foco a questão LGBT, de forma até então inédita por aqui. Portanto, quando alguém pergunta “afinal, qual o primeiro filme gay brasileiro?”, a resposta é essa.


O MENINO E O VENTO

Diretor: Carlos Hugo Christensen

Brasil, 1967, 100 min


onde ver: YouTube