O BEIJO, de 1965, expõe os desejos reprimidos pela sociedade conservadora


LUFE STEFFEN


“Você tem muito a ver com... O BEIJO”. Assim dizia o cartaz de O BEIJO, primeira adaptação de "O Beijo no Asfalto, texto teatral escrita por Nelson Rodrigues em 1959. A frase revela o que a obra quer dizer afinal: que a sociedade conservadora está muito mais envolvida com assuntos de natureza homoafetiva do que gostaria.


A trama, consagrada no teatro, é bastante conhecida: Arandir (Reginaldo Faria), um pacato rapaz recém-casado, envolve-se numa estranha situação. Ele é testemunha de um atropelamento e se mobiliza para ajudar a vítima. O atropelado agoniza no asfalto e, como último desejo, pede um beijo. Arandir beija o homem na boca, diante de outros pedestres, incluindo seu sogro, Aprígio (Xandó Batista). Após o beijo, o homem morre. Pronto, a partir dali a vida de Arandir vira um inferno.


A polícia, a imprensa, a cidade, os parentes e até sua esposa passam a atormentar Arandir, crucificando o jovem que ousou beijar outro homem na boca no meio da rua. A imprensa decide que Arandir tinha um caso com o morto; a polícia decide que Arandir cometeu homicídio e empurrou o amante para a morte no asfalto; a esposa duvida da fidelidade e da heterossexualidade do marido. Atônito, Arandir mal consegue se defender.


Em meio aos ataques, Arandir vai receber apoio apenas de sua cunhada, a jovem Dália

(Norma Blum), apaixonada por ele. Aprígio, o sogro, joga lenha na fogueira e condena Arandir com veemência – até que o trecho final revela a paixão enrustida dele pelo genro.


Armada essa teia de alucinantes situações, a obra mostra que o assunto principal não é nem mesmo a suposta homossexualidade de Arandir. O que está em jogo é a homofobia e a hipocrisia das pessoas. Como a sociedade reage a um suposto romance gay? E mais: como agem aqueles que, oportunamente, decidem tirar proveito do fato?


O enredo original de Nelson Rodrigues já é bastante vertiginoso, criando um clima de pesadelo surrealista para o protagonista. Mas o filme leva isso às últimas consequências, optando por um tratamento sufocante, reforçado pela fotografia sombria em preto-e-branco, pela música soturna, pelo comportamento sinistro dos personagens. Esse tom já surge na abertura do filme, que utiliza imagens grotescas das artes plásticas enquanto vozes em off julgam o comportamento de Arandir.


As interpretações do elenco são interessantes, com destaque para Jorge Dória no papel do dissimulado jornalista e o jovem Reginaldo Faria como o infeliz Arandir. Em termos de “cinema moderno”, o filme traz uma sequência arrojada: a jovem Betty Faria, em sua estreia nas telonas, surge executando um sensual e performático número de dança, um strip-tease cult, dentro de um bar. A cena é quase um clipe-comentário no meio da história, e pode ser lida como uma interpretação das sexualidades e desejos reprimidos.


Por falar em repressão, é curioso pensar que o filme foi realizado no período inicial da ditadura militar no Brasil, instaurada em 31 de março de 1964. Apesar de já reinar no país um comportamento de censura às obras artísticas, o filme foi liberado. Talvez porque Nelson Rodrigues tivesse posições conservadoras, talvez porque o desfecho da história seja de punição aos “desviados sexuais”.


O fato é que a peça rendeu ainda mais dois filmes, ambos intitulados O BEIJO NO ASFALTO: em 1980, de Bruno Barreto, e em 2018, de Murilo Benício.


O BEIJO, de 1965, está disponível no YouTube.


O BEIJO

Diretor: Flávio Tambellini

Brasil, 1965, 78 min


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