NOITE VAZIA, de Walter Hugo Khouri, desnuda ambiguidades da sexualidade



LUFE STEFFEN


O cinema peculiar de Walter Hugo Khouri merece análises à parte. Um dos cineastas mais pessoais do cinema brasileiro, Khouri conseguiu criar uma obra única, que não se fixa em nenhuma tendência, moda ou corrente, entre tantas que surgiram e sucumbiram na história do nosso cinema. Mas um dos trunfos dessa obra é exatamente aquilo que, hoje, é visto de forma pejorativa por alguns: o foco no universo masculino heterossexual – aberto portanto a acusações de ser uma obra machista, misógina e egocêntrica.


NOITE VAZIA, de 1964, é um de seus filmes mais atacados por essas críticas. Indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1965, reza a lenda que a atriz Olivia de Havilland, integrante do júri, ficou indignada com o longa e ameaçou se retirar do júri caso o filme ganhasse o prêmio máximo – ela também achava que o filme era uma afronta às mulheres.


Quase 60 anos depois, é importante contextualizar e revisar obras como essa. O filme faz na verdade uma crítica aos próprios protagonistas masculinos, retratados como “machos problemáticos”, perdidos em seus egos, carências e desejos sexuais e afetivos, repletos de inseguranças e infantilidades. E aí, as personagens femininas, que são tratadas por eles como objetos, se sobressaem como as figuras que tentam existir nesse mundo dominado pelos “chauvinistas”.


A trama mostra dois amigos (Mário Benvenutti e o italiano Gabriele Tinti) que saem todas as noites para a boemia de São Paulo, à caça de mulheres e aventuras sexuais – sendo que o primeiro deles é casado e pai de família. Na noite em questão, entediados e exaustos desse ciclo, os dois se deparam com duas prostitutas de luxo (Norma Bengell e Odete Lara), e acabam levando as moças para uma garçonnière. Ali se instala o duelo entre homens e mulheres (não por acaso, esse é o título do filme no mercado norte-americano: HOMENS E MULHERES).


A certa altura, os homens pedem que as mulheres satisfaçam um desejo: querem ver as duas juntas, em ação, na cama. Elas concordam, começa o encontro, mas a cena é interrompida: a personagem de Norma Bengell, que desde o início é mostrada como a moça sensível, tímida e passional, se recusa a ir adiante, e começa a chorar. A de Odete Lara, por sua vez, que é a “racional” e fria da dupla, reage com impaciência. “Me dá um cigarro”, ela diz aos homens. “Vocês não reparem, ela não está acostumada”. “E você, está?”, pergunta Benvenutti. “Que que cê acha?”, devolve ela.


Ou seja, temos aí um esboço da questão lésbica no cinema brasileiro. Fica claro que a personagem de Norma não é lésbica e não gosta disso. Mais adiante, ela reclama: “Vivem pedindo isso pra gente”. Já a personagem de Odete deixa no ar: ela seria de fato bissexual, e portanto para ela é banal ficar com outra mulher? Ou faz a coisa de forma mecânica quando solicitada, afinal, é uma profissional? Ou as duas coisas?


O fato é que a cena retrata um dos mais conhecidos fetiches até hoje cultivados por homens heterossexuais: assistir a duas mulheres juntas. No caso do filme, a cena levanta uma série de questões: as repressões sexuais dos dois homens ali presentes, e até mesmo uma bissexualidade recalcada dentro deles.


Quando se discute a presença LGBT no cinema brasileiro, uma das questões é a pouca aparição de personagens lésbicas – reflexo do machismo vigente na própria sociedade. Quando aparecem, as personagens lésbicas são mostradas de formas muitas vezes questionáveis – talvez por quase sempre terem sido escritas e dirigidas por cineastas homens heterossexuais. Essa é outra crítica que se faz a NOITE VAZIA – sua sutil representação da questão lésbica não teria valor, portanto. Curiosamente, no mesmo ano (1964), outro diretor conhecido por suas posições também um tanto quanto misóginas mostraria abruptamente um beijo entre duas mulheres: tente encontrar essa cena em DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Rocha.


Somente em 1984, 20 anos depois de NOITE VAZIA, teríamos o primeiro longa-metragem brasileiro protagonizado por personagens lésbicas e dirigido por uma mulher, Adélia Sampaio: AMOR MALDITO. Mas essa história veremos numa futura edição desta coluna.


Para ver ou rever NOITE VAZIA, a solução é o YouTube, embora o arquivo disponível não ofereça boas condições para se apreciar a espetacular fotografia em preto-e-branco e a marcante trilha sonora de Rogério Duprat.


NOITE VAZIA

Diretor: Walter Hugo Khouri

Brasil, 1964, 93 min


Onde ver:





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