Duelo sufocante de NA BOCA DA NOITE ganha tintas homoeróticas



LUFE STEFFEN


NA BOCA DA NOITE é o terceiro longa-metragem dirigido por Walter Lima Jr. Depois do cinema-novista MENINO DE ENGENHO (1965, adaptado do romance de José Lins do Rego) e do alegórico musical tropicalista BRASIL ANO 2000 (1969), o cineasta optou por certo minimalismo, em vários aspectos: rodado em preto-e-branco numa única locação (um escritório dentro de um prédio), com duração de 1 hora e 6 minutos (!), o filme é econômico e sintético, adaptando o texto teatral “O Assalto”, do dramaturgo mineiro José Vicente (1945-2007).


A peça havia sido montada originalmente em 1969, estrelada por Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro. E a mesma dupla de atores migrou para o cinema estrelando a adaptação de Walter Lima Jr.


Como o texto teatral já é bem sufocante (o duelo entre um bancário alucinado e um faxineiro que tenta limpar o banco numa noite pós-expediente), o clima foi mantido no filme. Apesar da locação realista (filmado num escritório verdadeiro), o cineasta consegue imprimir um pouco de sua marca fabulosa, às vezes onírica: aqui, essas impressões surgem no trabalho de câmera, deslizando pelas escadas rolantes ou se esgueirando por escadas circulares que lembram o cinema expressionista alemão.


Tudo isso para narrar a loucura do tal bancário, encarnado por Rubens Corrêa. Ele puxa papo com o humilde faxineiro, e se inicia um jogo neurótico entre os dois personagens. O faxineiro só quer varrer o banco e limpar as privadas, mas o bancário oferece dinheiro para que o rapaz não trabalhe, e para que conte tudo sobre sua (do faxineiro) vida.


Não demora para que entrem tintas eróticas na conversa. O faxineiro (vivido por Ivan de Albuquerque) confessa que já “fez programa” com homens em troca de dinheiro. O bancário acaba perguntando ao faxineiro: “Eu dou muita pinta?”


O clímax desse embate é o momento em que os dois trocam de roupa, um assumindo o lugar do outro. Poderia ser a chance para o filme enveredar pelo homoerotismo, mostrando talvez a nudez dos atores, ou ainda explicitando a transa entre eles (mas esta seria uma tarefa do texto original, e o fato é que os dois personagens nunca irão consumar o ato sexual).


E nem precisam, já que o foco do filme é outro. O duelo do bancário com o faxineiro terminará em violência, acompanhando o texto teatral (um texto-ícone do teatro brasileiro produzido no auge da ditadura militar). O filme se torna, assim, também um símbolo do momento pesado que o Brasil vivia em 1971, época de maior truculência do regime militar.


O Brasil de 50 anos depois tem semelhanças com esse mostrado no filme. Talvez seja a hora de uma refilmagem de “Na Boca da Noite” / “O Assalto”. Enquanto isso não ocorre, é possível ver a versão de 1971.


NA BOCA DA NOITE

Diretor: Walter Lima Jr.

Brasil, 1971, 66 min


onde: YouTube