Matou a família e foi ao cinema duas vezes


LUFE STEFFEN


Em tempos de remakes e reboots a granel e aproveitando as homenagens aos 80 anos de nascimento do cineasta Neville de Almeida, decidi revisitar as duas versões do clássico nacional MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA. Salvo engano, o filme original é o primeiro longa brasileiro a retratar um romance entre duas mulheres – embora faça isso numa chave completamente delirante e surrealista.


Em 1969, o cineasta carioca Júlio Bressane, então com 23 anos, realiza um dos marcos inaugurais do movimento do Cinema Marginal (ou underground, ou “údigrúdi”), ao lado de O BANDIDO DA LUZ VERMELHA (Rogério Sganzerla, 1968 - leia texto na Bixórdia).


Rodado integralmente em preto-e-branco, o longa mostra um rapaz esquisito que, cansado da agressividade do pai rabugento e da mãe apalermada, mata os dois com uma faca. Em seguida vai ao cinema ver um filme chamado PERDIDAS DE AMOR. Começa o filme dentro do filme, narrando a vida de uma moça chamada Márcia (vivida por Márcia Rodrigues), que se isola numa casa de campo, enjoada do marido fanfarrão. Recebe então a visita de uma amiga de infância, Regina (Renata Sorrah).


As duas se entregam a debates e recordações, e vai pintando um clima de romance entre elas, que passam a se comportar de forma cada vez mais alucinada. As carícias tímidas e beijos no rosto (que logo serão na boca) deixam clara a ligação entre as duas mulheres. No clímax do delírio, com as duas já vestindo camisolas campestres e flores nos cabelos, inventam uma brincadeira meio “tarantinesca” e brincam de dar tiros pela casa, até darem cabo uma da outra.


Simultaneamente, o filme PERDIDAS DE AMOR mostra outras histórias, aparentemente sem ligação. Numa delas, uma mãe castradora (Vanda Lacerda) reprime a filha adolescente (novamente Márcia Rodrigues), proibindo-a de se encontrar com a melhor amiga (novamente Renata Sorrah). Claro que as jovens ignoram a proibição. Um dia a mãe chega em casa e se depara com as duas em idílio amoroso. Corta para a garota matando a mãe no chão da cozinha enquanto a amiga lixa as unhas. Radical.


O Cinema Marginal sempre mostrou uma personalidade muito específica em seus filmes. Este, que foi um disparador do movimento, definiu sua estética. Assim, o filme deve ser visto hoje levando em conta o contexto absurdo, refletido na narrativa iconoclasta. Talvez por isso nas análises atuais sobre a temática lésbica no cinema brasileiro o filme seja ignorado. Ou talvez por ter sido dirigido por um cineasta homem. Alguns pesquisadores preferem considerar AMOR MALDITO (Adélia Sampaio, 1984) como “o primeiro longa brasileiro a focalizar um romance entre duas mulheres”. De fato, o filme de Adélia Sampaio está mais preocupado e comprometido com a questão lésbica do que o de Bressane.


Alheio a essas discussões, o também iconoclasta Neville de Almeida decidiu, em 1991, refilmar o longa de 1969.


Aqui algumas coisas são diferentes, outras nem tanto. O longa começa em preto-e-branco, com o então ator Alexandre Frota (😱) vivendo o jovem desajustado que liquida os pais (interpretados de forma hilária por Sandro Solviatti e Maria Gladys ). Mas antes o rapaz estrela cenas surpreendentes de alto teor homoerótico: rouba um facão no açougue, e ao chegar em casa faz um strip-tease e dança completamente nu com a faca – só por isso o remake já é mais “queer”, ou gay, do que o filme original. De quebra, ao assassinar os pais com o facão, o personagem veste apenas uma minúscula cueca – parece uma referência ao policial DEZ MINUTOS PARA MORRER (J. Lee Thompson. 1983), no qual um serial killer fica nu para matar suas vítimas a facadas.


Na sequência, o rapaz entra no cinema, e então as cores ganham a tela. No filme dentro do filme, repete-se a trama da esposa insatisfeita, Márcia (desta vez, Cláudia Raia). Ela recebe na casa de campo a amiga Renata (vivida por Louise Cardoso). Repete-se o envolvimento das duas, mas como estamos em 1991 as coisas ficam mais explícitas, e o filme exibe a nudez das atrizes na cama – a sequência da transa entre elas não chega a ser apelativa, mas ainda assim deve suscitar hoje acusações de que o filme tratou as personagens como objetos sexuais, fetichizando o caso entre as duas. Polêmica.


O desfecho é o mesmo, e as duas amigas também se matam durante a brincadeira de tiroteio. Detalhe: Claudia Raia e Louise Cardoso haviam acabado de viver outro casal de mulheres - no humorístico da Globo “TV Pirata” (1988/89), no quadro “As Presidiárias”, no qual Louise era uma burguesa francesa envolvida com o “sapatão” Tonhão (Claudia). Nas tramas paralelas que surgem, o filme opta por trocar o elenco. Assim, as adolescentes apaixonadas são vividas por Mariana de Moraes e Raquel Sorpício. As duas também protagonizam diversas cenas de nudez, incluindo um banho de banheira juntas. A mãe castradora (novamente Maria Gladys) barbariza, e a filha mata-a com uma pancada na cabeça.


O filme de Neville, claro, não adota as regras do Cinema Marginal, e, sim, tem a cara inconfundível do cineasta – flertando com o trash, herdeiro da pornochanchada, irreverente e agressivo o tempo inteiro. Ao mesmo tempo, o diretor cria cenas oníricas dignas de Buñuel em A BELA DA TARDE (1967): os trechos em que a personagem de Claudia Raia surge nua passeando pelo campo durante as fantasmagóricas noites bucólicas, contracenando com cavalos ou dominando o marido boçal, são impressionantes.


O trabalho de câmera e fotografia do filme revela-se o grande trunfo da obra, que assim cria imagens interessantes e ousadas, cunhando um filme pop e mais comunicativo do que a linguagem hermética do original de 1969.


O que a Bixórdia tem a ver com isso? Os dois filmes cumprem a proposta de retratar um caso entre duas mulheres. A abordagem pode ser discutível, e provavelmente reprovável nos tempos atuais, quando se buscam representações positivas e empoderadas das personagens femininas (sejam lésbicas ou não). Sem falar no final trágico e sanguinário, contrariando a ideia de que personagens LGBTs podem ter vidas normais e finais felizes. Mas nem sempre a arte (tampouco o cinema brasileiro!) é tão racional e ideológica. Ambas versões continuam abertas para revisões e reflexões.


Onde:


MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

Diretor: Júlio Bressane

Brasil, 1969, 78 min

Onde: Vivo Play




MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA

Diretor: Neville de Almeida

Brasil, 1991, 100 min

Onde: YouTube