Leia um extrato do livro "Helena Ignez: Atriz Experimental"



PEDRO GUIMARÃES

SANDRO DE OLIVEIRA


Para uma garota branca, nascida em família tradicional na Bahia do final dos anos 1930, de formação pequeno-burguesa — tocava piano e falava francês desde cedo —, em um ambiente protegido da “alta classe média, [...] extremamente hipócrita”(1), Helena Ignez saiu melhor que a encomenda.


Sua vida sempre foi marcada pela indelével força de seu caráter indomável, como pessoa, como profissional e como mulher; pelo seu desdém por valores que a sua classe social sempre valorizava e pelo seu absoluto desapego às vantagens que a fama e o dinheiro poderiam trazer. Rejeitou trabalhos quando estes só significavam ganho material, evitando aceitar contratos na TV, então local certo de afluência da classe artística brasileira.


Logo cedo, já carregava nas atitudes a marca de sua personalidade forte: fez vestibular para direito, mas acabou mesmo indo parar na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, em uma das primeiras turmas. Helena a descreve como local de excelência: diretores convidados (Brutus Pedreira, Gianni Ratto), aulas de dança com a polonesa Janka Rudska e de música com Hans-Joachim Koellreutter(2), compositor e musicólogo. Essa formação eclética foi importante em todas as reviravoltas na sua vida, tanto nos projetos profissionais quanto nos seus programas formais como atriz, no teatro e no cinema.


O cinema entrou na vida de Ignez pelas portas da paixão, como não poderia deixar de ser. Aos 17 anos, ainda na universidade, apaixonou-se por esse “menino baiano louco, extremamente corajoso, talentoso, revolucionário, que era o Glauber [Rocha]”(3), então jovem agitador cultural, escritor e ensaísta em publicações locais e que se tornaria um dos maiores cineastas do mundo. Juntos fizeram o primeiro filme de ambos, Pátio (Glauber Rocha, 1959), curta-metragem que Ignez ajudou a produzir com dinheiro próprio e que já trazia elementos experimentais: nenhuma narração ou diálogos, música concreta, primazia da expressão sobre a fábula. Casaram-se logo depois e permaneceram juntos por quatro anos, em uma parceria cinematográfica fugaz, até que Helena iniciou um namoro com um colega de Escola de Teatro que escandalizou Salvador e pôs seu casamento em ruínas(4).


Depois desse tumultuado caso amoroso que destruiu seu casamento, ela passou a carregar o epíteto de bandida nesse período baiano da sua vida, o primeiro entre muitos que viriam tentar dar conta de sua índole libertária. Parece que essa etiqueta indesejável que ela ganhou da escandalizada sociedade soteropolitana foi levada, com toques de ironia e muitíssimo bom humor, para os nomes de algumas de suas personagens da fase pós-Cinema Novo: Janete Jane, a escandalosa; Ângela Carne-e-Osso, a vampira histérica; Sônia Silk, a fera oxigenada; Betty Bomba, a exibicionista. Os nomes dessas personagens carregam a ideia de persona, que foi bastante explorada na mídia através de uma série de entrevistas e reportagens sobre seus filmes, suas personagens e sua vida privada. Após a fase em que atuou junto a diretores do Cinema Marginal brasileiro, Ignez continuou tendo alguns convites de trabalho em peças e filmes em que esse seu ar de mulher emancipada, a mulher de todos, dava o tom da escolha. Em 1998, o diretor baiano Roberto Pires a convidou para protagonizar Sob o sol de dois de julho, filme em que ela iria viver uma baronesa com “costumes revolucionários”(5).


A carreira de Ignez é, de certa maneira, um reflexo das atitudes absolutamente livres que teve em sua vida privada: fez o curso superior que desejou, relacionou-se e casou-se com os homens que quis, escolheu os filmes e os diretores com quem trabalhou, parou de atuar e voltou quando achou oportuno. Tendo sido dona e senhora do seu desejo e de sua carreira, Ignez tem uma vida que poderia ser uma bússola para quem quiser saber exatamente o conceito da palavra liberdade.

 

1. Álvaro Machado, “A atriz Helena Ignez conta sua história de amor com o cinema brasileiro”, Trópico, São Paulo/Rio de Janeiro: dez. 2001-jan. 2002.

2. Também responsável pela fundação da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia em 1954, onde Helena Ignez estudou.

3. Álvaro Machado, op. cit.

4. Tempos depois, Helena Ignez fez um balanço dessa série de eventos que envolveram sua vida e seu encontro com Glauber: “Foi uma adolescência (e um encontro) extremamente fértil, adoravelmente fértil e louca, que tinha sido estragada por um casamento”. Depoimento ao site Ocupação Rogério Sganzerla — Itaú Cultural.

5. Em decorrência da morte de Roberto Pires, em 2001, esse filme ficou inacabado. Cf. Vera Sastre, “A musa do Cinema Novo está de volta”, Contigo!, São Paulo: jan. 1998, n. 1.165, p. 60.

 

HELENA IGNEZ: ATRIZ EXPERIMENTAL

Edições Sesc São Paulo

Brasil, 2021


O livro "Helena Ignez: Atriz Experimental" terá lançamento durante a Mostra de Cinema de SP

31/10, às 19h, no Espaço Itaú Augusta - anexo