Hitchcock brinca com situação de Agatha Christie em A DAMA OCULTA



No trem que embarca de volta das férias nos Balcãs, a jovem Iris conhece a simpática Miss Froy. A senhora desaparece no meio do trajeto, e todos os passageiros negam tê-la visto. Iris decide investigar o mistério com a ajuda de um jovem estudioso de música.


Pensar sempre em Hitchcock como mestre do suspense levou-nos a esquecer de que seus filmes são também bastante engraçados. A DAMA OCULTA (1938) distingue- se no conjunto da obra do diretor por ser uma clássica comédia de erros e por misturar o humor britânico com o gosto de Hitchcock por falas e situações de duplo sentido.


Muito do efeito cômico do filme baseia-se nos disparates provocados pela obsessão da protagonista em reencontrar sua companheira de viagem. Outra parte resulta do ritmo como o filme alinhava as peripécias, fazendo o mistério ficar burlesco em vez de ameaçador. Embora algumas piadas percam o sentido na tradução, outras funcionam em qualquer língua, como a confusão que se estabelece entre a sonoridade dos sobrenomes Froy e Freud durante um agradável chá.



Para se adaptar ao orçamento bastante limitado, Hitchcock situou quase toda a trama dentro de um trem. A solução insere o filme num subgênero recorrente na época, o drama de mistério sobre personagens encerrados durante uma viagem. A situação havia sido adotada em dois romances populares publicados poucos anos antes por escritores ingleses: “Expresso do Oriente” (1932), de Graham Greene, e “Assassinato no Expresso Oriente” (1933), de Agatha Christie.


Na mesma década, o cinema havia usado a mesma fórmula, por exemplo em O EXPRESSO DE SHANGHAI (1932), de Joseph von Sternberg, e em SUPREMA CONQUISTA (1934), de Howard Hawks. Nesses livros e filmes o trem funciona como fator dramático e dinâmico, pois mantém os personagens fechados num espaço, os obriga a conviver em cabines, a se cruzar em corredores e leva o enredo a culminar com a chegada a um destino.


Outro aspecto que agrega graça e ritmo ao filme é a multiplicidade de personagens, cuja variedade de tipos e manias alimenta as reviravoltas. Sem esquecer que a escolha de pessoas de nacionalidades e línguas distintas injeta atualidade à trama, revelando a despreocupação com a crise que dali a pouco culminaria na Segunda Guerra Mundial.

Em meio a espiões que disputam segredos internacionais, a jovem noiva, o despreocupado musicólogo, o casal de amantes e a dupla de ingleses que só pensa em críquete representam indivíduos desatentos com o que acontece ao redor enquanto o mundo em que vivem avança aceleradamente rumo ao abismo.


A DAMA OCULTA

Diretor: Alfred Hitchcock

Inglaterra, 1938, 96 min


onde ver: Belas Artes à la Carte


 

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