Glamour de POSE não apaga a expressão das identidades marginalizadas



LUFE STEFFEN


POSE já é uma instituição sólida quando o assunto é temática LGBTQIA+ em séries. Mesmo porque tem como criador Ryan Murphy, uma instituição sólida do audiovisual norte-americano, independentemente dos assuntos queer: Ryan Murphy. A carreira admirável de Murphy transformou-o numa espécie de Midas das séries e telefilmes dos EUA, enfileirando hit atrás de hit nos últimos 10 anos, desde o estouro da série teen musical escolar GLEE (2009). Não por acaso, GLEE é inspiração para uma série brasileira que vem aí, produzida pela Disney, e capitaneada por Miguel Falabella (que é um equivalente brasileiro de Murphy). Um dos pilares do trabalho de Ryan Murphy sempre foi a associação com a cultura gay, com as questões LGBTQIA+ e o universo queer, o que foi levado às últimas consequências em POSE. A série teve duas temporadas, lançadas em 2018 e 2019 pelo canal Fox. Em 2020 não houve, pois a pandemia interrompeu. Em 2021, foi exibida a terceira temporada (será a última?), que agora desembarca na plataforma Star+, com as duas primeiras. A Bixórdia revisou as temporadas 1 e 2 antes de mergulhar na 3. Qual o saldo? De fato, é preciso tirar o chapéu (ou a peruca) para Ryan Murphy. Como criador e roteirista da série (tarefa que ele dividiu com Brad Falchuk e Steven Canals), Murphy conseguiu levantar um grande “novelão”, melodramático e envolvente, com todas as tintas que conhecemos de nossas telenovelas. Mas com a imensa diferença de mostrar o protagonismo de personagens LGBTQIA+ (principalmente travestis e pessoas trans, a maioria pessoas negras e/ou latinas), personagens que vivem na periferia de Nova York em meio à clandestinidade e à marginalidade, interpretados por pessoas que na vida real são também LGBTQIA+. Assim, a saga POSE revela estrelas que brilham em seus papéis, defendendo com garra seus “lugares de fala” – conceito tão comentado e exigido. Dominique Jackson como Elektra, Indya Moore como Angel, Angelica Ross como Candy e principalmente Michaela Jaé Rodriguez como Blanca dão verdadeiros shows. Michaela recebeu o reconhecimento no Globo de Ouro 2022, levando o prêmio de Melhor Atriz de Série Dramática – é a primeira mulher trans a ganhar um Globo de Ouro, além de ser a primeira mulher trans indicada ao Emmy, o Oscar da TV americana. Entre os atores gays ou bissexuais, se destacam Ryan Jamaal Swain como o gênio da dança Damon, Dyllon Burnside como Ricky e claro Billy Porter como o pitoresco Pray Tell, o narrador dos bailes que são o contexto da série. Porter levou o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática em 2019 por seu trabalho na primeira temporada. A ênfase nas sexualidades e/ou identidades de gênero pessoal de atrizes e atores com as de seus personagens na tela não é “fofoca”. Com a mudança dos padrões do mercado, POSE tem a importância de enfrentar os preconceitos da indústria ao escalar atrizes e atores até então desconhecidos do grande público e com este perfil para estrelar a série. Provavelmente, se POSE tivesse sido produzida há 10 anos, as personagens trans teriam sido encarnadas por atrizes cisgêneras e já famosas, para atrair audiência. Assim, a revolução principal de POSE é maior em termos de mercado e de indústria do audiovisual do que apenas na tela. Mas na tela houve também a preocupação de realizar um produto de alta qualidade com a grife Ryan Murphy e todos os cacoetes que o tornaram conhecido. Portanto, está lá todo o luxo e glamour que caracterizam Murphy, sempre homenageando grandes momentos da Hollywood clássica, principalmente os grandes musicais dos anos 1930 aos 1960. Neste caso, o gancho musical está no papo: afinal, POSE se passa no universo nova-iorquino dos bailes, os “balls”, nos quais pessoas LGBTQIA+ periféricas se realizam como estrelas na “passarela” do porão onde ocorrem as festas-competições, tudo regado a muita música pop e disco que tornam a narrativa ainda mais envolvente – de quebra, numa época de apogeu da música pop, no período 1987-1988 (primeira temporada) e 1990-1991 (segunda temporada). Esse universo marginal e clandestino, deliciosamente sedutor, foi de fato uma realidade naquela Nova York da virada dos anos 1980 para os 1990, em plena escalada da Aids, numa época em que descobrir-se soropositivo era uma sentença de morte. Ali nasceu a cultura do “voguing”, “strike a pose”, que foi a inspiração para a popstar Madonna criar o hit “Vogue”, que dominou o planeta em 1990, levando para o mainstream a cultura gay underground. Como sempre, depois da febre mundial retornou ao gueto, esquecida pela mídia (a cultura gay underground, não Madonna, claro). Essa cena interessantíssima já tinha sido registrada no longa-metragem PARIS IS BURNING, de 1990, dirigido pela cineasta Jennie Livingston, que levou o Teddy Bear de Melhor Documentário no Festival de Berlim de 1991. O filme ficou esquecido durante anos, até ser resgatado pela drag queen RuPaul em seu famosíssimo reality show RUPAUL’S DRAG RACE, por volta de 2010. A partir dali, PARIS IS BURNING virou objeto de culto e sua influência mais forte revela-se na criação da série POSE – na qual Livingston colaborou como consultora, além de dirigir um episódio. POSE é, portanto, uma versão ficcionalizada, romantizada, baseada na cena real e nos personagens de PARIS IS BURNING. A adaptação é bem-sucedida, embora se possa dizer que POSE higieniza a cena original – é o tal “toque de Ryan Murphy”, que torna tudo glamourizado. Basta comparar as cenas dos bailes de PARIS IS BURNING com as de POSE. No primeiro caso, as festas aparecem em toda a sua chocante crueza, com imagens quase grotescas em sua selvageria trash, e por isso mesmo autêntica; no segundo, parece que as festas receberam a varinha de condão da fada madrinha de Cinderela, e tudo surge lindo, multi-colorido, bem iluminado e num look fashion digno de desfiles de moda de Milão. Luxo, beleza, brilho e bom gosto. Para não afugentar o público médio das plataformas mainstream.

Seja como for, os méritos de POSE são muito maiores que suas concessões. Ryan Murphy exibe uma saga que se sustenta por duas temporadas (resta agora conferir a terceira), gerando interesse pelos personagens, suas tramas e subtramas, causando empatia e engajamento, empoderando tais personagens e suas comunidades (quantas palavras que usamos muito atualmente!). Por tudo isso, a segunda temporada acaba exagerando na militância e se torna, às vezes, panfletária, com os personagens disparando discursos políticos e sociais, em alguns casos de forma artificial – culpa do roteiro, não do elenco. Outra questão discutível é o excesso de otimismo de Ryan Murphy, criando utopias muitas vezes forçadas, mesmo que sejam idealizações de “um mundo que todos nós gostaríamos que fosse possível” – o mesmo “pecado” que ele cometeu na série HOLLYWOOD. A arte existe para isso também, é claro – por que não poderia ser assim? Criar essas ousadas utopias e conseguir transmiti-las para um público privilegiado pode ser, sim, um eficiente Cavalo de Troia. O resultado final é positivo e o que sobressai é a emoção e a eletricidade, especialmente nas sequências dos “balls”. Outro trunfo da série: encerrar as temporadas com episódios épicos. O final da segunda temporada ainda traz um desfecho digno do clássico AO MESTRE COM CARINHO, de 1967 – estrelado pelo astro negro Sidney Poitier, que faleceu recentemente. Magicamente, tudo se encaixa.



POSE (3 temporadas): Star+


PARIS IS BURNING (1h11): YouTube