Filme de Bergman documenta o impacto das mutações da subjetividade


MARCELA MEDINA


CENAS DE UM CASAMENTO, roteiro concebido para a televisão e posteriormente adaptado para o cinema, mostra um Bergman centrado no texto para expor situações rotineiras de um casamento burguês. É o caso em que as aparências ditam as regras de forma tal que o casal não se dá conta da real situação de insatisfação e frustração que experimenta, o que leva marido e mulher a não perceberem o quanto são frágeis e dependem do olhar de fora para legitimarem sua condição de exemplo de felicidade.


Com encenação abertamente teatral, os seis episódios trazem atuações soberbas do casal principal, com destaque para a Marianne de Liv Ullmann, que apresenta com delicadeza uma curva que vai da fragilidade discreta diante do marido à descoberta da feminilidade e da força que a acompanha - na mesma medida que o macho alfa (Johan, o cônjuge) se apequena. Nesse sentido, a cena inicial, antológica ao mostrar uma entrevista em que o casal feliz é estimulado a dizer e mostrar sua condição privilegiada de harmonia, traz a síntese de uma condição que irá se deteriorar ao longo da narrativa. O que vemos dali em diante é a dinâmica de um casamento tradicional que amarga a existência em momento de transformações radicais nos costumes e nos papéis desempenhados por marido e mulher.


O silêncio reverente e aparentemente apaixonado de Marianne, na verdade, um comportamento de omissão e submissão capaz de detonar qualquer dinâmica de afeto, não passa de um roteiro conhecido no grande teatro das relações conjugais que ao longo da década de 1970 já estava sendo posto em xeque a partir de pautas como emancipação da mulher e feminismo, o direito proclamado ao orgasmo e a possibilidade de dizer e fazer o que desse na telha. O filme de Bergman, então, apresenta um “como fazer” às avessas, em que a união cheia de fotos, afagos e declarações ostensivas de felicidade será detonada enquanto é exposta como espaço de frustrações e ressentimento.


Há registros de uma explosão de divórcios na Suécia, supostamente decorrentes da popularização do petardo bergmaniano. Talvez seja uma relação de causa e efeito muito simplória. Existem camadas de complexidade na história de Marianne e Johan que podem nos fazer questionar a ideia de felicidade e o conceito de “amor saudável” e “relação tóxica”, uma dupla que anda na moda dos discursos desconstruídos, mas depende de um grau de idealização que nossa realidade confusa talvez não tenha condições de comportar.


O casamento cujas cenas acompanhamos ao longo de quase três horas não é saudável, mas levanta uma pergunta: será o amor redutível a categorias de saúde ou doença? E o que seria o amor, senão uma caminhada difícil e única de descoberta e partilha com outro ser humano? O olhar de Bergman nos oferece elementos para reflexão e parece muito mais interessado em observar e entender do que em chegar a conclusões. E, no entanto, ao fim da jornada pode ser que percebamos, com uma certa surpresa, que ele é mais otimista do que parece.


CENAS DE UM CASAMENTO

Diretor: Ingmar Bergman

Suécia, 1973, 163 min


onde ver: Telecine

 

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