Festival 8 e 1/2 homenageia a cineasta italiana Alice Rohrwacher



MARCELA MEDINA


Uma ideia fundamental do pensamento moderno corresponde à nostalgia de um tempo mítico em que homem e natureza existiam indiferenciados. Nessa identidade una era possível vivenciar uma espécie de plenitude vislumbrada apenas na preservação da memória pela tradição e na ingenuidade da infância. O mergulho na obra de Alice Rohrwacher deixa claro o diálogo do cinema contemporâneo com o tema, já que desde seu filme de estreia, CORPO CELESTE (2011), passando por AS MARAVILHAS (2014) e chegando a LAZZARO FELICE (2018), é a instabilidade do olhar infantil no caminho do amadurecimento que sinaliza o distanciamento progressivo de uma forma de viver que será perdida para sempre, levando consigo seus valores e afetos.


“Existem coisas que o dinheiro não compra”, afirma Wolfgang, apicultor em uma zona rural lembrada por um concurso de televisão que vai premiar com “um saco de dinheiro” o pequeno fazendeiro que melhor representar com seus produtos as maravilhas provenientes daquela região. Wolfgang é pai de Gelsomina, protagonista de AS MARAVILHAS e análoga à Marta de CORPO CELESTE. Ambas amadurecem enquanto um mundo inteiro se perde: a memória concreta representada pelo camponês que produz para sua subsistência; os valores cristãos confirmados nos rituais da igreja; a infância. Nos longas, o que se vê é a tentativa patética de deter o tempo e o consequente esvaziamento do sentido de tradição, seja pelo desvio dos interesses eclesiásticos para assuntos seculares, como campanhas políticas e demandas pessoais, seja pelo modo de produção capitalista, que não acomoda técnicas artesanais e condena os pequenos produtores à pobreza e, finalmente, à extinção. Gelsomina, Marta e o Lazzaro de LAZZARO FELICE constituem uma passagem entre o passado (e a memória e a identidade) e um futuro sem inocência.


O registro de Alice Rohrwacher tem sido comparado ao Neorrealismo pelo foco em classes desfavorecidas e pelo lirismo extraído de situações de penúria. A delicadeza da fotografia destaca os ambientes desconfortáveis e, por vezes, sujos por onde circulam seus personagens, sugerindo ao espectador um olhar empático que reforça a crítica social enquanto declara o fim de uma era. Esses filmes não são otimistas. Por outro lado, é possível encontrar um respiro na forma de uma utopia de comunidade que encaminha o afeto do pertencimento pela evocação da memória coletiva. Nesse sentido, os curtas-metragens UNA CANZONE (2014) e OMELIA CONTADINA (2020) se articulam como duas faces de um mesmo rosto. Se a morte é o fim inexorável, ela pode ser enganada pela ilusão de um canto coletivo, guardado há muito na ancestralidade e capaz de trazer de volta a identidade aniquilada pelo tempo do capitalismo. Então, podemos enxergar em Alice Rohrwacher uma atualização de Sherazade. Seu cinema parece dizer que é preciso cantar para sobreviver.


onde ver:


CORPO CELESTE (2011)

8 e 1/2 Festa do Cinema Italiano [até 27/6]



AS MARAVILHAS (2014)

8 e 1/2 Festa do Cinema Italiano [até 27/6]

Belas Artes à la Carte



UNA CANZONE (2014)

8 e 1/2 Festa do Cinema Italiano [até 27/6]



LAZZARO FELICE (2018)

Netflix


OMELIA CONTADINA (2020)

8 e 1/2 Festa do Cinema Italiano [até 27/6]



QUATTRO STRADE (2021)

MUBI


 

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