Cary Grant assume seu outro lado em ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO



PEDRO GUIMARÃES


Cary Grant é um ator único na linhagem de atores clássicos do cinema. Por ter começado a carreira no cinema bem na virada do cinema mudo para o falado, Grant guardou, em suas performances, um inusitado tom de burlesco em filmes em que a tônica já não eram mais as acrobacias cômico-físicas do ator. Mesmo em filmes com diálogos e histórias bem elaborados, diferentes dos filmes de Charles Chaplin ou Buster Keaton, Grant arranja sempre uma maneira de fazer o ator do cinema mudo. Pequenas acrobacias, saltos miniornamentais, rosto ultraexpressivo e ações fragmentadas compõem um tipo de performance que eleva a fisicalidade a altos índices. O lado atleta, corpo em forma e silhueta longilínea, ajudam na criação ao mesmo tempo de um corpo que gera fascínio, mola mestra do star system clássico, e adesão pelo riso e a autoironia.


ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO parece, portanto, um título perfeito de filme para esse herdeiro de Carlitos não declarado. Uma das linhas de força do burlesco, seja na forma muda ou falada, é a criação de um mundo sem ordem, turbulento, caótico, em que forças opostas brigam para se manter de pé. Grant aparece nesse filme como um crítico de teatro que descobre que as boazinhas e amorosas tias são, na verdade, assassinas sádicas. Sua vida regrada e seu noivado são alterados ao se deparar com o absurdo, o que propicia as gags visuais de se estabelecerem como elemento comunicador do ator/personagem.


Luc Moullet, autor de livro sobre análise de atores, dizia que Grant trabalha igual a um corredor de Sprint, ou seja, ele passa da pose e inércia completa ao frenesi do movimento em questão de minutos, o que gera necessariamente um efeito cômico. Nesses momentos, Grant cria um tipo-canguru, agindo como o animal que observa e espreita ações e movimentos para antes sair em desabalada correria. Moullet defende que Grant é justamente um ator-autor por conseguir imprimir a todos os seus papeis, seja de um assassino frio ou o de um atrapalhado galanteador, o mesmo programa gestual que torna reconhecível seus métodos e resultados da atuação.


O diretor Frank Capra conseguia, com a mesma habilidade, dirigir comédias malucas (chamadas “screwball”, variação das comédias românticas em que o par central se encontra e se desencontra em ritmo frenético) e filmes tocantes de envolvimento e elevação pessoal. ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO pertence ao primeiro tipo e consegue tirar de Grant, ao mesmo tempo, o jogo naturalista baseado em diálogos e acelerados, e o jogo à la Chaplin, com momentos de fisicalidade digna do mestre do cinema mudo.


ESTE MUNDO É UM HOSPÍCIO

Diretor: Frank Capra

EUA, 1943, 118 min


onde: Belas Artes

 

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