Drama japonês KALANCHOE capta as questões da sexualidade na adolescência



LUFE STEFFEN


É longa a lista de filmes (curtas, médias e longas-metragens, de múltiplas) que tematizam as descobertas da sexualidade e da identidade de gênero durante a adolescência – o que significa dizer, quase sempre, dentro do ambiente escolar. Enquanto esses temas continuarem sendo considerados tabus (e hipocritamente usados por oportunistas políticos e/ou religiosos como plataformas de cruzadas moralistas, frequentemente associando sexualidade na adolescência com pedofilia, entre outras jogadas sujas), será necessária a existência desses filmes.


Um exemplo é o belo e delicado média japonês, KALANCHOE, dirigido em 2017 pelo jovem Shun Nakagawa (nascido em 1987). O filme fala da descoberta da sexualidade por uma pessoa que estuda num colégio onde o assunto vira polêmica de uma hora para outra, depois que uma enfermeira do pronto-socorro escolar faz uma pequena palestra numa das classes, explicando o significado da sigla LGBT e defendendo o respeito a quem se identificam com a sigla.


Os alunos, em sua maioria imaturos, reagem com perplexidade ou preconceito. Dois meninos, do tipo “bobalhões”, concluem que a enfermeira fez tal discurso naquela sala porque alguém na turma deve ser LGBT naquela turma. E passam a tentar adivinhar quem seria.


Nesse sentido, o filme se desenrola retratando como a sociedade ou um microcosmo reage a um boato de que “há uma maçã podre entre nós”. Faz lembrar o texto teatral “O Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues em 1959 (adaptado 3 vezes para o cinema, em 1963, 1980 e 2017 ). Outra obra seminal sobre o efeito do “boato LGBT” é “The Children’s Hour”, texto teatral da norte-americana Lillian Hellman publicado em 1934 e transposto 2 vezes para o cinema por William Wyler, em 1936 e em 1961, ambos intitulados INFÂMIA.


Em KALANCHOE, a trama passa da denúncia sobre o preconceito dentro do ambiente escolar para um sensível retrato sobre a descoberta da sexualidade, num tom agridoce que causa impacto. O elenco juvenil é excelente e a direção consegue criar o clima exato para envolver o espectador.


Cada vez mais filmes vêm buscando desmistificar tais questões e tentando dar visibilidade a personagens LGBTs que se atrevem a viver suas sexualidades, desejos e identidades de gênero ainda na fase adolescente-escolar. No Brasil, alguns exemplos são os longas HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (Daniel Ribeiro, 2014), ALICE JÚNIOR (Gil Baroni, 2019), A PRIMEIRA MORTE DE JOANA (Cristiane Oliveira, 2021) e meu longa em produção, NÓS SOMOS O AMANHÃ (Lufe Steffen, 2022).



KALANCHOE

(39 min)

onde: Filmicca


ALICE JÚNIOR (1h30)

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HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO

(1h36)

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