Documentário de Karim Aïnouz sobre ativista argelina ganha exibição grátis



CÁSSIO STARLING CARLOS


As fotos que vemos no início de NARDJES A. se assemelham, num primeiro olhar, a documentos históricos como tantos outros. São registros nos quais aparece a multidão, imagem concreta da abstração chamada “povo”, celebrando uma emancipação. A conquista da independência pelos argelinos frente ao colonialismo francês está visível em cada face, a alegria indistinguível da vitória revela-se em cada gesto, em cada olhar. Ali, em meio a muitos homens, jovens e até meninos, é possível identificar, quase clandestinas no espaço público e político, as faces de algumas mulheres.


Elas são como pontos perdidos na multidão, mas estão lá, embora em evidente minoria. Meio século depois, nas ruas da mesma Argel, Karim Aïnouz inverte essa presença quase inexistente ao colar sua câmera na face, no corpo e nos movimentos de Nardjes Asli. A jovem ativista participa das manifestações contra o governo decrépito de Abdelaziz Bouteflika, presidente que ficou 20 anos no poder.

Não há uma grande ambição informativa no documentário. O contexto político, a crença progressista da família de Nardjes e breves interlocuções da personagem com os pais oferecem o necessário para entendermos os motivos da luta e os riscos da participação feminina em uma sociedade autoritária tanto na política como nos códigos de comportamento.

Há um volume visivelmente superior de homens na manifestação, mas a opção formal de seguir continuamente protagonista, privilegiar o indivíduo no lugar da massa, converte Nardjes em uma espécie de dínamo, numa forma incansável que propaga palavras de ordem, numa forma de energia que pulsa, entusiasma, avança. Embora seja inevitável aproximar Nardjes de Suely, Violeta, Eurídice ou Guida, protagonistas desse cinema constituído por corpos e dores femininas, o documentário de Aïnouz não carrega a tinta melancólica de seus melodramas.

Aqui, o afeto predominante é a alegria, manifesta na vida que luta, no combate como forma da existência, na resistência às imposições e aos disparates. É impossível não sentir a ebulição da vida no entusiasmo de Nardjes, não identificar nela um exemplo e um estímulo para contrariar e resistir à vontade de morte que nos aprisiona, nos isola, nos faz sentir impotentes.

Como uma boia salva-vidas no oceano de merda em que naufragamos, NARDJES A. nos diz, com sua exuberante alegria, que na história todo agora não existe sozinho ou acima de tudo e de todos. Sempre há um antes e um depois.

NARDJES A. Diretor: Karim Aïnouz Alemanha/França, 2019, 80 min


onde: Videocamp

de 1/11, às 20h, até 2/11, às 20h

 

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