Curtas brasileiros feitos por mulheres falam de resistências que não se extinguem



Por MARCELA MEDINA


Uma mulher à procura da mãe, um homem à procura do pai – assim é possível sintetizar os curtas de Patrícia Cornils e Nathália Tereza, realizadoras do documentário QUERIDA MÃE (2009) e do ficcional DE TANTO OLHAR O CÉU GASTEI MEUS OLHOS (2018). Os filmes estão mais próximos, porém, do que se vê na coincidência temática, entrelaçando memória e origem a um ato de resistência que é do próprio cinema e do cinema feito por mulheres.


Em entrevista anterior a QUERIDA MÃE, Patrícia Cornils destacou as dificuldades de se fazer cinema no Brasil, que vão desde o dinheiro para filmar até as limitações da exibição. Se longas-metragens esbarram nesses obstáculos, muito pior é a situação de curtas-metragens e documentários, que acabam contando quase exclusivamente com os festivais e a TV por assinatura, o que sustenta a declaração sobre “viver de cinema não pagar as contas”. Equilibrando-se entre “frilas” jornalísticos e projetos documentais, foi nesse gênero que Patrícia encontrou motivos para aprender a “escrever por imagens” (palavras suas), contando histórias que lhe permitissem se posicionar no mundo. Por isso, um filme como QUERIDA MÃE, documentário epistolar autobiográfico, pulsa em ritmos cuja força ultrapassa a mera narrativa de uma história pessoal, alcançando tonalidades que o irmanam a obras maiores como, por exemplo, DEMOCRACIA EM VERTIGEM. A procura por Zélia Maria, mãe da cineasta e morta precocemente, conduz o espectador e a narradora de seu próprio filme, sua própria história e sua própria vida pelas experiências do passado constituinte de uma identidade a ser reivindicada pela cartografia de vozes femininas. Alinhadas, elas formam um mosaico e parecem dizer que a origem está no cruzamento de afetos atravessados pelo tempo.


É o tempo, dessa vez o tempo perdido, que aparece como elipse no filme de Nathália Tereza. Um tempo que ficou para trás e se anuncia como possibilidade de esperança na forma de uma carta. Trata-se de um passado que Luana quer esquecer, mas seu irmão Wagner não consegue lembrar. DE TANTO OLHAR O CÉU GASTEI MEUS OLHOS trabalha com a ideia da origem impossível na figura de um pai ausente, perdido no passado de dor. O que seria pior? O apagamento do pai ou a atualização do sofrimento motivada pelo movimento de busca? O Wagner de Edilson Silva é comovente. Porém, é nas personagens femininas – Luana (Maria Eny) e sua mãe – que se concentra a força dos aguerridos. Elas enfrentam a realidade tal qual se apresenta e fazem da vida o que desejam que ela seja. São elas que espelham, por sua resistência, uma potência maior e mais expansiva que seus enredos. É a potência efetiva de um cinema feito por mulheres que dizem a todo momento que já vai longe o tempo do silêncio. QUERIDA MÃE e DE TANTO OLHAR O CÉU GASTEI MEUS OLHOS são apenas dois excelentes exemplos de um barulho não só bem-vindo, como absolutamente necessário.


QUERIDA MÃE

Diretora: Patrícia Cornils

Brasil, 2009, 26 min


onde ver: Itaú Cultural Play



DE TANTO OLHAR O CÉU GASTEI MEUS OLHOS

Diretora: Nathália Tereza

Brasil, 2018, 25 min


onde ver: Itaú Cultural Play