Cultura cinematográfica alimentou e distinguiu a dramaturgia de Gilberto Braga


LUFE STEFFEN


Gilberto Braga partiu aos 75 anos (quase 76), deixando um legado admirável como roteirista, dramaturgo, novelista, escritor, enfim, criador de tramas que empolgaram o Brasil durante quase cinco décadas. E deixa nas obras suas marcas registradas – entre elas, a assumida paixão pela sétima arte.


Ele nunca disfarçou sua fascinação pelo cinema, principalmente o norte-americano. E com outra fascinação contida nessa: a ligação com os grandes melodramas que Hollywood realizou nas décadas de 1930 a 1950. Diversos filmes clássicos do período serviram de matriz para tramas novelescas criadas por Braga, enriquecendo os folhetins que o autor escreveu para o horário das 20h na TV Globo – a era de ouro desses folhetins compreende as novelas “Dancin’ Days” (1978-79), “Água Viva” (1980), “Brilhante” (1981-82), “Louco Amor” (1983) e “Corpo a Corpo” (1984-85).


Mesmo depois, quando o autor cresceu ainda mais em dimensão, essa influência do cinema não desapareceu – ao contrário, tornou-se mais sofisticada. Foi a fase dos folhetins mais políticos, que compõem uma espécie de trilogia: “Vale Tudo” (1988-89), “O Dono do Mundo” (1991-92) e “Pátria Minha” (1994-95). Na abertura de “O Dono do Mundo”, as imagens icônicas de Chaplin dançando com uma bola-mundo em O GRANDE DITADOR reiteravam diariamente o namoro com o cinema.


Em “Vale Tudo”, surge o personagem que seria um tipo de alter-ego de Gilberto: o mordomo Eugênio (Sérgio Mamberti), cinéfilo alucinado e enciclopédico que vivia citando filmes e personagens famosos da história do cinema. Dessa forma, “Vale Tudo” foi uma obra de natureza metalinguística, na qual Eugênio revelava ao público as referências cinematográficas que a própria novela utilizava.


Antes de Eugênio, outro afetado mordomo criado por Braga também era consumidor de cinema: Everaldo (Renato Pedrosa) de “Dancin’ Days”, fiel mordomo de Yolanda Pratini (Joana Fomm), era fã de Greta Garbo. Numa cena, diz que foi ao cinema ver uma reprise de um filme com a musa sueca e assistiu “ao filme inteiro de joelhos!”


A produção de minisséries escritas por Braga também bebeu na fonte do cinema. “Anos Dourados” (1986) foi a melhor versão brasileira de retratos nostálgicos da juventude americana que Hollywood tão bem fizera em LOUCURAS DE VERÃO (de George Lucas, 1973) e HOUVE UMA VEZ UM VERÃO (de Robert Mulligan, 1971), entre outros. “Anos Rebeldes” (1992) passou a limpo o período da ditadura militar no Brasil, usando brilhantemente recursos dos movimentos cinematográficos mais cultuados da década de 1960: o Cinema Novo e a Nouvelle Vague. “Labirinto” ( 1998 ), minissérie não tão genial, manteve o pique do cinema ao fazer um pastiche de filmes dirigidos por Alfred Hitchcock, sem perder a inspiração em clássicos do drama americano – FÉRIAS DE AMOR (de Joshua Logan, 1955) foi a principal fonte.


A partir dos anos 2000, com “Celebridade” (2003-04), a influência do cinema ficou um pouco mais diluída nas obras do autor, mas não desapareceu jamais. Talvez tenha sido um reflexo da fragmentação das mídias, do crescimento da internet e das assustadoras redes sociais – um pequeno mundo que se tornou mais poderoso do que a sétima arte tinha sido até então; e que interessava menos a Gilberto Braga, que nunca abandonou o romantismo insuperável do cinema.


Confira a lista de 13 clássicos do cinema que inspiraram o autor.