Clássico gay britânico, NIGHTHAWKS leva a uma viagem aos tempos da disco



Lufe Steffen


Considerado o primeiro grande filme gay britânico, NIGHTHAWKS é uma pérola a ser descoberta no oceano dos streamings. Um filme estranho, que não se encaixa em padrões narrativos, e ao mesmo tempo demonstra parentesco com outros filmes gays célebres (e igualmente esquisitos) de diversas nacionalidades.


Narra o cotidiano de um professor de geografia que se divide entre a rotina das aulas para adolescentes numa escola e a vida noturna frequentando bares e discotecas gays, onde flerta, e constantemente passa a noite com diferentes conquistas – que nunca avançam para um relacionamento. Esse plot faz lembrar o filme alemão TAXI ZUM KLO (Frank Ripploh, 1980), no qual o protagonista também é um professor gay, mas ali a vida sexual (e fetichista) do personagem é a prioridade, com cenas explícitas de sexo e muita nudez. Também lembra À PROCURA DE MR. GOODBAR (Richard Brooks, 1977), o hardcore clássico americano no qual Diane Keaton vive uma professora fonoaudióloga infantil, que caça homens na noite disco dos 70.


Em NIGHTHAWKS as delirantes sequências da pista de dança lotada de homens fervendo têm um tom quase documental e antecipam outro clássico: o polêmico PARCEIROS DA NOITE (William Friedkin, 1980), no qual Al Pacino encarna um policial que finge ser gay para penetrar nas festas fetichistas de sexo no submundo nova-iorquino, a fim de prender um serial killer que está exterminando gays.


Mas NIGHTHAWKS opta mesmo pelo caminho do estudo reflexivo e documental. Assim, diversas sequências parecem saídas de um documentário, e quando dois personagens conversam a câmera fica estática apenas registrando o diálogo – e aí surge mais um parentesco: com o alemão NÃO É O HOMOSSEXUAL QUE É PERVERSO, E SIM A SITUAÇÃO EM QUE ELE VIVE (Rosa Von Praunheim, 1971), que tinha proposta semelhante.


Todas essas referências não diminuem o carisma de NIGHTHAWKS, que sutilmente envolve o espectador. E na parte final, uma surpresa: (spoiler!) de repente, os alunos do protagonista bombardeiam com perguntas sobre sua sexualidade, e o que se segue é uma cena instigante, uma espécie de NA IDADE DA INOCÊNCIA (François Truffaut. 1976) tingida pelo punk britânico de 1978.


Só essa sequência já valeria o filme, mas há outros charmes: a bela fotografia (cenas noturnas com pouca exposição de luz, gerando a charmosa imagem granulada); a trilha sonora original, rejeitando hits da disco do período e assim criando uma musicalidade própria; e o elenco interessante, com destaque para Ken Robertson encarnando o professor agoniado. Enfim, um clássico obscuro que merece ganhar mais luz.


O roteirista e diretor Ron Peck voltou ao tema 13 anos depois, em 1991, com o documentário STRIP JACK NAKED, no qual narra suas experiências pessoais e sua jornada para realizar NIGHTHAWKS.



NIGHTHAWKS

Diretor: Ron Peck

(Reino Unido, 1978, 1h53)


onde: Filmicca