Cinema é ilusão e revelação no espanhol O ESPÍRITO DA COLMEIA


MARCELA MEDINA


Numa pequena vila do interior da Espanha os estertores da guerra civil parecem não chegar e a população – principalmente as crianças - se vê arrebatada com a passagem de um cinema itinerante. É na primeira sessão que seremos apresentados ao espírito desse filme, que assume a perspectiva infantil para promover um olhar poético, tanto quanto atordoado, sobre o mundo adulto e os choques do amadurecimento.


No início da sessão, o mestre de cerimônias adverte a plateia sobre o filme a que irão assistir. Trata-se do FRANKENSTEIN (1931), que já teria apavorado a Europa com sua mistura de ciência e horror transformados em violência gratuita. “Não se deixem levar pelo que veem, porém”, adverte o homem. “Tudo pode ser apenas ilusão”. Victor Erice conduz seu filme sob a égide da desconfiança promovida por um certo ilusionismo presente nas telas como paralelo ao que se vê na vida. Aos olhos da pequena Ana, Frankenstein se torna o símbolo do mal e do medo das coisas que ela não entende, mas sabe que estão à espreita e se movem no silêncio de uma realidade que muda de tom aos poucos, passando dos brinquedos infantis ao confronto com a morte. A partir do olhar de Ana e sua irmã Isabel, o espectador é mergulhado em imagens arrebatadoras e silenciosas que atualizam o sentido da consideração de Walter Benjamin sobre a impossibilidade de narrar a experiência da guerra.


São lembranças evocadas por álbuns de fotografias, cartas nunca enviadas, semblantes sem sorrisos e uma colmeia, que pode ser apenas um recurso da composição, um “truque” literário, que, trabalhados quase como um poema visual, contribuem para fazer dessa obra um momento definitivo do cinema espanhol. A fotografia utiliza recursos de iluminação capazes de imprimir a O ESPÍRITO DA COLMEIA um tom de fábula condizente com a proposta de um filtro mágico entre o olhar de Ana e o mundo circundante. A trilha sonora minimalista de Luis de Pablo costura as cenas, preenchendo o silêncio e convidando a acompanhar a menina em sua jornada de perplexidade progressiva e inevitável choque de realidade. Mas é a força da natureza concentrada em Ana Torrent, em sua estreia aos 7 anos, que confere ao filme de Victor Erice a potência de perturbação e beleza que encontramos nas histórias bem contadas, aquelas que por sua mágica irresistível são capazes de nos jogar direto, sem piedade, no meio da realidade dura que chamamos de vida. Essa é a grande ilusão de Victor Erice e desse filme extraordinário.


O ESPÍRITO DA COLMEIA

Diretor: Victor Erice

Espanha, 1973, 98 min


onde ver: Festival Volta ao Mundo: Espanha [até 16/6] no Belas Artes à la Carte



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