Chantal Akerman traduz o essencial de Proust em adaptação de A PRISIONEIRA


Por Marcela Medina


Os filmes de Chantal Akerman são construídos na estética do confinamento, um modo de narrar que limita o enquadramento ao essencial. Um dos resultados é a hipertrofia da ideia de tempo, fazendo seus planos parecerem eternos e sugestionando nossos olhos de espectador à busca de algo indefinido, que nos escapa, mas está lá, atrás de uma porta fechada ou ao longo de uma rua, à meia-luz, por onde um homem se esgueira.


Em A PRISIONEIRA, realizado pela diretora belga em 2000, forma e conteúdo coincidem para trazer às telas um estudo sobre o amor – ou suas impossibilidades. Da observação vagarosa da dinâmica de um casal, surge a pergunta: seria o amor aquela coisa que sempre escapa? Esse é o ponto de desencontro entre Simon (Stanislas Mehrar, excelente) e Ariane (Sylvie Testud), casal que vivencia o sentimento de forma diversa e contraditória: enquanto ele deseja total conhecimento e controle da sua amada, ela se despe de exigências ou vontade em nome da preservação do mistério. “O mistério é intrigante”, diz Ariane, “e é estimulante saber que o homem que amo possui todo um universo que me é inacessível”.


Chantal Akerman disse que filmou "A Prisioneira", romance no qual o filme é inspirado, em busca daquilo que para ela era essencial. A obra de Marcel Proust, por sua vez, tem como proposta justamente a busca do essencial, entendido como aquilo que a gente intui, mas não alcança, porém, passa a fazer parte de nós como um dado orgânico indefinível, que perseguimos ad eternum. A modernidade chamou isso de utopia. Proust chamou de "Em Busca do Tempo Perdido". Chantal Akerman, ao concretizar o tempo na tela, como que para não perdê-lo, como que para educar o olhar do espectador na direção daquilo que ele não vê, mas está lá – além ou aquém – demanda o olhar para dentro, promovendo um insólito “movimento” de contemplação. É aí que Simon, Ariane, eu ou você podemos formular com propriedade a pergunta do que é isso que a gente persegue e sempre dá uma resvalada quando parece que estamos chegando perto, mas nos move o tempo todo. Pode ser amor, pode ser mistério, pode ser a vida.


A PRISIONEIRA

Diretora: Chantal Akerman

França/Bélgica, 2000, 118 min


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