CAÇADORES DE TRUFAS desvela segredos dos italianos que guardam tesouros


MARIO VISCONTI


Logo no início de CAÇADORES DE TRUFAS, saboreamos um diálogo entre um tartufaio (caçador de trufas, em italiano) já idoso e um jovem que parece também estar envolvido no negócio. O rapaz tenta, em vão, convencer o homem a mostrar o lugar onde ele encontra suas preciosidades. “Pense bem, você com oitenta e três anos e meio... e se algo acontecer com você, ninguém saberá onde seus tartufos estão”, ele diz. E escuta: “Mas ora, eu não diria nem a meu filho onde os encontro!”.

O diálogo ilustra a aura que envolve esse diamante exclusivo da culinária italiana, um ingrediente cujo quilo chega a ser cotado em milhares de euros. O valor estratosférico sofistica o consumo e faz movimentar um negócio glamoroso e lucrativo não só para a Itália, mas também para quem importa e comercializa o ingrediente a preço de ouro mundo afora.


Tudo isso se justifica porque o tartufo bianco é mesmo uma iguaria inesquecível, basta sentir seu perfume uma única vez e depois prová-lo. A sensação que se tem é de que os pés se levantam da terra. Para acompanha-lo, não é preciso mais nada que uma simples polenta ou uma pasta al burro. No entanto, como tudo que envolve a culinária italiana, este é um tipo de ingrediente que tem um sabor lá e outro fora. Portanto, um aviso a quem não conhece os caminhos imprevisíveis do tartufo (pois, como tudo o que é bom, há anos em que a produção é melhor do que noutros): melhor prová-lo na Itália, pelo menos se for pela primeira vez.


Impossível de ser cultivado, apesar das infinitas tentativas de descobrir o processo de desenvolvimento, o tartufo tem de ser colhido, ou melhor “caçado”, como os envolvidos no negócio gostam de dizer. Isso porque ele aparece na natureza no outono e não se sabe muito bem onde. Sim, é isso mesmo: aparece. O trabalho de encontrá-lo não é feito por qualquer um. É uma profissão cujo segredo é mantido a sete chaves. O tartufo bianco cresce apenas e exclusivamente em determinadas regiões italianas, e aparece com mais abundância no Piemonte, no norte do país, como mostra o documentário.


Há uma lenda que diz que ele cresce espontaneamente sempre no mesmo dia, na mesma hora e no mesmo lugar. O tartufaio, então, explora um território secreto, que só ele sabe onde fica, à noite, e revela a outra pessoa apenas pouco antes de morrer. A “caça” é feita com uma pá pequena já que os “diamantes” ficam a uma profundidade entre 6 cm a 50 cm, e a ajuda de um cachorro, que indicará o lugar exato onde cavar a jóia. O cão, que pode ser de raça ou não, quando devidamente treinado, chega a valer uma pequena fortuna. Como um tartufo!


CAÇADORES DE TRUFAS

Diretores: Michael Dweck e Gregory Kershaw

Itália/Grécia/EUA, 2020, 84 min


Onde ver: AppleTV - Google Play - Now - Sky Play - Vivo Play - YouTube



 

MARIO VISCONTI é pesquisador e professor de língua e cultura italiana.