Busca da felicidade em LOLA, de Jacques Demy, já é pura felicidade



MARCELA MEDINA


“Buscar a felicidade já é felicidade.” Talvez essa frase pontual, enunciada lá pelo meio de LOLA, A FLOR PROIBIDA, sintetize não só o luminoso longa de estreia de Jacques Demy, mas o projeto estético do autor. Lendário em sua forma de conjugar técnicas de uso da cor e da música, Demy executava uma mis-en-scène que sinalizava a mistura de fantasia e melancolia presente nas narrativas amorosas. O ápice dessa experiência veio em 1963, com o icônico OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR, seguido, mas não superado em notoriedade, por DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (1967). Porém, em LOLA (1961) já estava tudo lá – e a fotografia em preto e branco só reforça a ideia de um esboço.


Lola é personagem-título dentro de uma linhagem de mulheres fatais que despertam amores desatinados e levam os homens à perdição. Antes e depois de Anouk Aimeé, as Lolas de Marlene Dietrich (1930) e de Barbara Sukowa no filme de Fassbinder (1981) são agentes da decadência moral e espiritual de seus devotos. Em 1961, no entanto, a Lola da Nouvelle Vague percorre fluida as ruas de Nantes para catalisar o movimento que leva Roland Cassard, personagem de Marc Michel, em direção a um ideal de felicidade que, mesmo apenas vislumbrada, já pode ser sentida como tal. Afinal, o condutor de Roland é o tédio e a sensação de vazio de sentido que resulta em uma das melhores tiradas do texto excelente de Jacques Demy. (Atenção ao patrão do então jovem fotógrafo!)


Concebido aparentemente como um estudo do movimento que se depreende da ideia de busca e se contrapõe ao tédio e à inércia, é interessante notar como o roteiro de Demy lega aos personagens um estado de permanente perambulação, que pode estar no vai e vem de Lola entre o lar e o cabaré, nas idas e vindas dos marinheiros americanos, nos passeios de Cécile (duplo simétrico da personagem) e até nas voltas atarantadas de Madame Desnoyers dentro do apartamento. O que esses deslocamentos têm em comum é sempre a oposição à inércia dos sem esperança, representados por personagens secundários que permanecem parados atrás de um balcão ou diante de uma pintura que nunca é concluída.


Roland Cassard representa bem o jovem de seu tempo. Não podemos esquecer o peso do pensamento existencialista sobre os ombros de uma geração que acaba angustiada diante da responsabilidade de agir e fazer escolhas. Frente a tamanha liberdade, sobra a paralisia, que também dói, e da qual Roland só se liberta quando reencontra Cécile/Lola.


O amor, essa força motriz da vida, é a promessa de felicidade vislumbrada nas esquinas, nos cabarés, nas praças e parques de diversões de uma Nantes transformada em partitura por um diretor que “fez um musical sem música”, como já se afirmou de LOLA e de Demy. É claro que nem sempre as promessas se cumprem. Mas quem pode afirmar que não se cumprirão?


LOLA, A FLOR PROIBIDA

Diretor: Jacques Demy

França, 1961, 90 min


onde: MUBI


 

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