TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA desnuda o conservadorismo brasileiro



LUFE STEFFEN


Alguns clássicos do nosso cinema se mantêm espantosamente de pé a cada revisão. Um deles é TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA, de Arnaldo Jabor, baseado na peça de Nelson Rodrigues. O longa, de 1973, levou o Kikito de Melhor Filme na 1ª edição do Festival de Gramado.


A peça original de Nelson (lançada em 1965) já é, por si só, uma pérola de humor, e o filme consegue transformar de forma criativa o hilário texto em imagens, contando a história da (mais uma) família bizarra de Herculano (interpretado por Paulo Porto), que acaba de ficar viúvo e não quer mais viver. O irmão alucinado (Paulo César Pereio) empurra o viúvo para os braços da prostituta Geni (Darlene Glória). Herculano e Geni se apaixonam perdidamente.


Mas o filho de Herculano, o puritano adolescente Serginho (Paulo Sacks), é contra o casamento, apoiado pelas três tias solteironas (atuações hilariantes de Elza Gomes, Henriqueta Brieba e Isabel Ribeiro), virgens e reprimidas, que criaram o menino como se fosse um padre. Está armado o xadrez da família enlouquecida, que é o prato habitual de Nelson Rodrigues.


Mas onde está a Bixórdia nisso tudo? Logo no início do filme, no bordel onde Geni trabalha, nos deparamos com uma bicha estratosférica (vivida por Sérgio Mamberti), que auxilia na gerência da casa. Mas o clímax da questão gay está mais adiante, quando Serginho se mete numa briga, vai em cana, e na cadeia acaba sendo estuprado pelo Ladrão Boliviano.


Mas - atenção, spoiler - o inesperado acontece: ao final do filme, Serginho decide viajar, abandonando a madastra Geni, sua amante – porque a essa altura Herculano e Geni estão casados, mas ela está totalmente seduzida pelo doentio enteado. Geni leva Serginho ao aeroporto, e se desespera ao descobrir que o rapaz embarca ao lado do... Ladrão Boliviano.


A importância do Ladrão Boliviano na cultura gay brasileira é até hoje lembrada. Até o livro “Devassos no Paraíso”, de João Silvério Trevisan, bíblia da homossexualidade brasileira, citou o mitológico personagem, analisando a genialidade de Nelson Rodrigues ao transformar o estuprador de Serginho. De algoz ele se torna o grande amor, o símbolo do único final feliz da peça e do filme.


O filme é bonito de se ver, com fotografia e direção de arte empolgantes, e cheio de sequências antológicas. Uma delas é justamente o estupro de Serginho. Sem precisar mostrar nada de forma mais direta, Jabor apenas prepara o clima, com o Ladrão Boliviano iniciando seu ritual de sedução. Quando parte para a ação, tudo o que vemos é a plateia do ato: os outros presos da cela, que batucam e cantam a carnavalesca “Bandeira Branca” enquanto o crime se desenrola.


Dois anos depois Arnaldo Jabor voltaria a adaptar Nelson, desta vez baseando-se no romance “O Casamento”, e fazendo então um filme ainda mais marcante e genial.


TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA

Diretor: Arnaldo Jabor

Brasil, 1973, 102 min


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