TRAÍDOS PELO DESEJO representou, antes do tempo, a questão transgênero



LUFE STEFFEN


Na última Bixórdia de 2021, decidi resgatar um pequeno clássico do cinema de língua inglesa – influenciado talvez pelas recentes indicações ao Globo de Ouro e as vindouras indicações do Oscar 2022. O filme que evoco foi um grande indicado a prêmios (e vencedor, em alguns casos): TRAÍDOS PELO DESEJO (THE CRYING GAME).


Os mais novos talvez desconheçam esse filme, enquanto o público veterano com certeza se lembra do impacto que ele causou naquele início dos anos 1990. Há 30 anos, o mundo era outro. E o grande “segredo” do filme, aquele que ninguém deveria revelar (pedia a publicidade do filme), residia numa questão hoje atualíssima, polêmica e que está diariamente no prato do dia – a identidade de gênero.


Nesta coluna não poderemos respeitar o segredo, e somos forçados a dar spoiler! Até porque do contrário não haveria como falar do filme aqui. Então vamos lá: a trama se inicia construindo uma amizade de “brotheragem” – isto é, a cumplicidade entre dois homens: um soldado britânico (Forest Whitaker) e um militante (Stephen Rea) do grupo terrorista IRA, que acaba de sequestrar o tal soldado.


Durante o período de cativeiro, o soldado e seu principal vigia, o militante, criam uma afinidade quase romântica. E o soldado, sabendo que será executado pelos terroristas, faz um pedido ao novo amigo: que este procure sua namorada, e cuide dela. Afinal, o soldado nunca mais irá vê-la...


A segunda etapa do filme mostra o militante se aproximando da tal garota, a misteriosa, sensual e fascinante Dil (Jaye Davidson). A química é intensa e os dois iniciam um romance. Mas eis que... na cena que se tornou inesquecível, Dil se despe para o novo amante, e este descobre perplexo que Dil é uma travesti, ou mulher trans. E agora?!


Muito se discutiu, na época, sobre a suposta necessidade de o filme exibir um nu frontal de Jaye Davidson, intérprete da personagem Dil. Dois tabus se acumulavam nesta cena que dura 5 segundos: a questão trans e a presença de um pênis, sempre tão escandalosa até hoje. Quando o assunto é “mas não precisava dessa cena!”, a resposta sempre pode ser “para o diretor do filme precisava”. Tudo é uma questão de escolha, e a do roteirista e diretor Neil Jordan foi mostrar em vez de contar.


Outra questão que não existia há 30 anos e hoje é incontornável: a personagem Dil, sendo uma personagem travesti ou uma personagem transgênera, é encarnada por um ator cisgênero: o então estreante Jaye Davidson. Se o filme fosse realizado (ou refeito) hoje, a indústria não aceitaria que a personagem não fosse interpretada por uma atriz trans ou uma atriz travesti. Mesmo porque atualmente o mercado tem cada vez mais opções de atrizes trans que vêm se destacando em filmes e séries – como Michaela Jaé Rodriguez, a intérprete de Blanca na série POSE, pela qual acaba de ser indicada ao Globo de Ouro como Melhor Atriz de Série Dramática de TV.


Falando em indicações: Jaye Davidson cativou as plateias com suas interpretação e foi indicado a vários prêmios, incluindo o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. O filme foi indicado a outros 5 Oscars, incluindo Melhor Filme, Ator (para Stephen Rea) e Direção – venceu somente o de Melhor Roteiro Original.


Jordan voltaria a questões de gênero ou simplesmente questões gays – seu longa seguinte foi ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994, adaptando o romance de Annie Rice sobre o vampiro bissexual Lestat). Em 2008, ele realizou o interessante CAFÉ DA MANHÃ EM PLUTÃO, centrado na saga de Kitten, adolescente trans vivendo nos anos 1970 – também aqui persistiu a escalação de um ator cis para viver a personagem

(a missão coube a Cillian Murphy).


Polêmicas à parte, a atuação de Jaye Davidson é magnética, a direção de Neil Jordan é elegante e o filme resiste, 30 anos depois. Cereja do bolo: o resgate da canção “The Crying Game”, que no filme é interpretada por Jaye Davidson e, nos créditos finais, por Boy George, outro ícone gay inglês.


TRAÍDOS PELO DESEJO

Diretor: Neil Jordan

Reino Unido/Japão/Estados Unidos, 1992, 112 min


onde: Belas Artes




Clipe de "The Crying Game"