Bixórdia traz à tona aspectos homoeróticos subliminares do clássico Limite



LUFE STEFFEN


No próximo mês de maio, precisamente no dia 17, completam-se 90 anos de lançamento daquele que ainda é considerado em muitas listas (inclusive internacionais ) como “o melhor filme brasileiro de todos os tempos”: LIMITE.


Cercado de mitologias, simbolismos e mistérios, características acentuadas pela personalidade enigmática de seu diretor, Mário Peixoto (que dirigiu somente esse filme, o que aumenta o culto em torno dele), LIMITE chega aos 90 celebrado como uma obra rara, cujas imagens continuam impressionando pela beleza impactante.


E como todo cânone, é claro que LIMITE também pode ser lido por diversos significados, incluindo as hoje tão faladas questões queer – temática desta nossa coluna. Portanto o segundo filme de nossa listagem de 100 brasileiros LGBT essenciais é ele mesmo, LIMITE.


Ao longo das últimas décadas alguns pesquisadores levantaram essas questões. O que temos de concreto é: o filme traz uma espécie de triângulo amoroso composto por duas mulheres e um homem, que estão à deriva num barco. Há quem diga que o triângulo envolveria as duas mulheres, que teriam alguma conexão entre si. O contraste entre as duas personagem é evidente: uma delas tem um aspecto mais aristocrático, enquanto a outra parece um animal selvagem. Uma atração lésbica existiria ali?


Para mim, a questão mais direta está em outro lugar: a estranha cumplicidade que se estabelece entre o homem do barco e um outro sujeito (encarnado pelo diretor, Mário Peixoto). Na misteriosa sequência do cemitério, os tais mancebos se encontram e fumam. Simbolicamente, e numa construção de decupagem que se mostra muito bem pensada, a cena dos cigarros exibe uma certa composição “fálica”, com cada um brandindo seu cigarro e um acendendo na brasa do outro. Falando em brasa...


Assim como na coluna da semana passada, com BRAZA DORMIDA, também em LIMITE não há nada concreto. Mas um detalhe interessante desses argumentos é a vida pessoal do próprio Mário Peixoto, roteirista e diretor do filme: nascido na Bélgica em 1908 e falecido no Rio de Janeiro em 1992 aos 83 anos, ultimamente Peixoto vem sendo estudado através de seus diários, que começaram a ser escritos em 1926.


Nos relatos, muito se discute sobre a sexualidade de Peixoto. O pesquisador carioca Denilson Lopes tem mergulhado nesse universo, dentro de sua pesquisa sobre

genealogia queer no modernismo brasileiro. A aparência “feminina” ou “efeminada” de Peixoto teria sido inclusive uma polêmica entre parentes e amigos na época, como o diário atesta. Peixoto teria recebido conselhos para ser mais “masculino”, e ele teria resolvido seguir tais orientações. Mas nos anos 1960, quando Peixoto se isolou no também misterioso Sítio do Morcego, alguns comentários sobre sua vida pessoal voltaram a ser assunto.


Claro que independente da sexualidade de Mário Peixoto, LIMITE pode ou não ter tido conotações homoeróticas. E também pela própria concepção abstrata do filme, tudo pode ser relativo e aberto a interpretações. Assim, só nos resta recomendar que o filme seja (re)descoberto no seu aniversário de 90 anos.



LIMITE

Diretor: Mário Peixoto

Brasil, 1931, 114 min


Onde ver:

Libreflix

Cinemateca Popular Brasileira: Filmografias & Cronologias