Bixórdia homenageia Paulo José com os desafios aos limites em MACUNAÍMA


LUFE STEFFEN


A volta da coluna Bixórdia após um certo hiato vem com sabor melancólico e ao mesmo tempo eufórico: triste pela morte do ator Paulo José (1937-2021); excitada ao rever o filme hoje e constatar seu brilho imortal: MACUNAÍMA.


Em 1969, em pleno auge da ditadura militar no Brasil (o terrível AI-5 tinha sido decretado em dezembro de 68 ), em meio ao Brasil tropicalista e surrealista, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade seguiu as coordenadas antropofágicas do Tropicalismo ( influência que já rendera o espetáculo “O Rei da Vela”, que José Celso Martinez Correa dirigira em 67 baseado no texto do modernista Oswald de Andrade ) e bebeu na fonte do movimento modernista de 1922, resgatando outro de seus mitos: Mário de Andrade, cujo livro de 1928 virou então filme.


Paulo José, um ator que tinha então 32 anos e construía uma carreira intensa no teatro e no cinema (e que naquele mesmo ano de 69 estrearia na TV), foi escalado para viver o personagem-título, mas não apenas: numa prova de sua hilariante versatilidade, o ator começa o filme vivendo o personagem da mãe de Macunaíma – para depois encarnar o próprio, quando o protagonista deixa de ser negro e “vira branco”.


De cara, já podemos citar esses “detalhes” para justificar a escolha do filme para esta coluna que pretende fazer um registro cronológico dos grandes momentos do cinema brasileiro no aspecto da temática LGBTQIA+ ou queer. Paulo José abre o filme encarnando uma personagem feminina – com tudo de lúdico e delirante que essa opção traz. Temos aí a questão do gênero, hoje tão polêmica e debatida. Se o filme fosse feito hoje (como de fato existe um projeto de remake vindo aí...), a personagem da mãe teria de ser obrigatoriamente interpretada por uma atriz? Ou por uma mulher trans?


O filme MACUNAÍMA existe antes de tudo isso. Da mesma forma, a própria transformação de Macunaíma na história, de homem negro para homem branco ( “e lindo!”, como o próprio filme diz, ressaltando portanto de forma quase perigosa a questão do racismo ), poderia muito bem ser lida hoje como uma metáfora das transições de gênero, hoje na pauta do dia. Incrível pensar que um livro lançado há quase 100 anos, e um filme lançado há mais de 50, permanecem atuais em suas provocações.


Mas tem mais: logo no início, quando o Macunaíma negro (Grande Otelo) fuma “um cigarrinho” fornecido pela fogosa cunhada Sofará (Joana Fomm) e se transforma num “príncipe branco e lindo” (Paulo José), chama a atenção a caracterização do tal príncipe – é algo extremamente gay, inenarrável na festa de cores psicodélicas e na forte androginia.


Androginia, aliás, dá o tom ao filme. Durante toda a trama, nos deparamos com figuras sempre ambíguas em seus gêneros e sexualidades: desde a guerrilheira Cy (Dina Sfat, então casada com Paulo José), uma mulher masculinizada, esquálida em sua magreza, e totalmente masculina ao dominar Macunaíma em muitos sentidos, inclusive sexuais; até o pândego vilão, o gigante Venceslau Pietro Pietra (Jardel Filho), um personagem caricato e super-sexualizado, que se revela praticamente pansexual, numa cena também carregada de significados: Macunaíma, travestido como uma madame, vai à mansão de Venceslau para roubar-lhe o amuleto Muiraquitã. Venceslau tenta seduzir a “moça” e ordena que ela se dispa. Ao ficar nu, Macunaíma mostra a Venceslau que é um homem, e sai correndo, apavorado. Mas Venceslau berra: “Um rapaz?! Ora, mas venha cá! Volte! Eu não tenho preconceitos!”


A própria esposa de Venceslau (encarnada pela fantástica Miriam Muniz) e suas filhas (a “Filhona” e a “Filhinha”) são caracterizadas de forma over e grotesca, lembrando drag queens – e a lendária atriz e vedete Wilza Carla vai além, surgindo numa aparição que lembra a travesti Divine (que naquele mesmo final dos anos 1960 começava a despontar no underground americano pelas mãos do cineasta trash John Waters). Os hilários irmãos de Macunaíma (vividos por Milton Gonçalves e por Rodolfo Arena) também mostram ambiguidades, reforçadas pelo figurino (no caso do personagem de Milton) ou pela caracterização original (no caso de Arena, uma figura estranhíssima incrível no filme). Até o elenco de figuração entra nesse jogo de embaralhamento de definições de gênero: a mansão de Venceslau ostenta em sua bizarra decoração interna algumas vitrines, e dentro delas estão rapazes e moças seminus, maquiados e afetados, em poses lânguidas e sensuais.


E claro, a inesquecível atuação do genial Grande Otelo também entra nessa conta: irreverente e debochada, a interpretação do ator brinca com o masculino e o feminino o tempo todo, numa mistura de saci com anjo – figuras a princípio assexuadas.


Em termos de direção de arte, o filme também dialoga com tendências em alta na época: ecos da contracultura norte-americana e do movimento hippie, mesclados com o tropicalismo nacional, simbolizado ainda pela obra de Hélio Oiticica e seus parangolés: por toda parte, no filme, se enxergam as cores vivas e berrantes desse momento brasileiro, num caldeirão antropofágico mesmo – cujo momento-clímax é a piscina de feijoada, encenada no Parque Lage, no Rio de Janeiro, cunhando um dos maiores momentos do cinema brasileiro.


Diante de tudo isso, apresentando uma gama de personagens e criaturas que potencializam questões queer, gays, de gênero, questões étnicas e raciais, questões indígenas e tribais, questões de miscigenação e até questões capitalistas, MACUNAÍMA mostra-se um filme que diz muito sobre o Brasil de hoje, sobre as lutas sociais que tanto incomodam os dirigentes conservadores desse país tão caótico. Mas mesmo sem levar tão a sério o filme, e absorvê-lo apenas por seu lado lúdico e quase infantil, ainda assim a obra persiste: em sua celebração do disfarce, da fantasia, da mágica de se transformar em outra coisa, essa mágica tão sonhada e perseguida pela humanidade.


Para ver e rever MACUNAÍMA, a plataforma Globoplay disponibilizou a versão remasterizada em 2004, no formato 2K, a partir dos negativos originais de 1969, versão que celebrou os 35 anos do filme.


MACUNAÍMA

Diretor: Joaquim Pedro de Andrade

Brasil, 1969, 100 min


Onde ver:

Globo Play

Oi Play

TeleCine

 


Receba a newsletter FILMEDODIA.COM