Bixórdia examina a amizade de duas cantoras no musical POEIRA DE ESTRELAS



LUFE STEFFEN


Nos dois primeiros filmes abordados na seleção de 100 brasileiros LGBTQIA+ essenciais, nosso foco foi em personagens supostamente gays masculinos. Em POEIRA DE ESTRELAS (1948), terceiro título da lista, emerge a presença feminina.


POEIRA DE ESTRELAS, dirigido por Moacyr Fenelon, é um filme bastante inofensivo. Uma comédia musical leve, típica da década de 1940 no cinema brasileiro. Não chega a ser uma produção esfuziante como as chanchadas da Atlântida que dominaram os anos 1940 e 1950, mas flerta com o gênero. Porém, o que nos interessa é a amizade entre as duas protagonistas.


Sônia (vivida pela atriz e cantora Lourdinha Bittencourt) é uma cantora que já tem certo nome no universo do teatro. Norma (encarnada por ninguém menos que Emilinha Borba, a Rainha do Rádio) aproxima-se dela, desejando também ser cantora. As duas formam uma dupla, as “Irmãs Avelar”, e alcançam um sucesso estrondoso.


De cara, um detalhe curioso: as Irmãs Avelar, na trama, apresentam-se sempre cantando duetos compostos para um casal homem-mulher. Assim, uma delas está sempre caracterizada como homem, interpretando o papel masculino da canção, enquanto a outra defende a personagem feminina. O filme já começa com um dueto como esse (o nascimento da amizade das duas será, posteriormente, narrado em flashback), e com outro detalhe nada desprezível: elas fazem a hoje condenável e inaceitável prática do “black face” – estão maquiadas como se fossem pessoas negras, a fim de entoar a canção “Boneca de Piche”.


Em diversos momentos do filme a amizade das duas mulheres mostra-se como uma relação forte. Ambas possuem namorados ou noivos, mas a ligação entre elas sempre é mais intensa – o que fica reforçado pelos números musicais românticos das Irmãs Avelar e por alguns enquadramentos de câmera que juntam as duas atrizes de forma significativa.


Já no início do filme existe um trecho sugestivo: Norma anuncia a Sônia que vai largar a parceria com ela para se casar com um homem. Sônia fica arrasada e deprimida. Sozinha no camarim, rememora os grandes momentos da dupla. A sequência final, sem revelarmos o desfecho, também opta por privilegiar as duas protagonistas, em detrimento do interesse amoroso masculino de uma delas.


As suspeitas sobre um possível romance entre essas personagens já apareceram em alguns estudos oficiais, o principal deles o livro “A Personagem Homossexual no Cinema Brasileiro”, de Antônio Moreno, publicado em 2001. Ali, o autor cita rapidamente o filme, que apresentaria uma “amizade suspeita entre duas amigas. Não focaliza abertamente, intencionalmente, esta relação, mas, devido à reação das personagens, induz o espectador a pensar nela”.


Vale a pena conferir POEIRA DE ESTRELAS, interessante também como uma pequena e ingênua pérola dos primórdios do cinema nacional – um tanto simplório, despretensioso, mas honesto. Apesar do som estar deteriorado, o filme pode ser visto no YouTube.



POEIRA DE ESTRELAS

Diretor: Moacyr Fenelon

Brasil, 1948, 80 min


Onde ver: Cinemateca Popular Brasileira: Filmografias & Cronologias