Bixórdia estreia com seleção de 100 filmes LGBTQIA+ brasileiros



LUFE STEFFEN

Estreio minha coluna temática no Filmedodia com uma opção a princípio surpreendente: como assim, um filme mudo de Humberto Mauro é o primeiro de uma lista de 100 filmes brasileiros de temática LGBTQIA+?


Bom, antes de mais nada, vamos esclarecer: o recorte desta coluna será para longas-metragens brasileiros (ficção ou documentário, mas os curtas-metragens ficam de fora) que tenham ligação direta ou indireta com o universo LGBTQIA+, seja por meio de personagens, enredo, ambientação, estética. E que mereçam ser inseridos numa listagem que se propõe, humildemente, resgatar os momentos-chave dessa temática no nosso cinema. No fim das contas, a ideia sempre é: vale a pena ser visto?


O primeiro curta-metragem brasileiro apontado como pioneiro em trazer personagens LGBTs é o famoso AUGUSTO ANÍBAL QUER CASAR (1923, de Luiz de Barros, também conhecido como Lulu de Barros ). Mas como estamos optando por falar de longas e não de curtas, minha escolha vai mesmo para o terceiro longa dirigido pelo grande cineasta mineiro Humberto Mauro (1897-1983).


Mas o que BRAZA DORMIDA teria de LGBT? Oficialmente, nada. Mas de algum tempo para cá, pesquisadores e acadêmicos que estudam a questão LGBT no cinema brasileiro consideraram que o filme pode ter sido um dos primeiros a trazer, ainda que de forma muito discreta, um personagem gay masculino. Esse seria Jorge, um jovem sensível interpretado pelo ator Máximo Serrano, que atuou em cinco filmes dirigidos por Humberto Mauro.


Em BRAZA DORMIDA, ele interpreta um humilde funcionário de uma usina que centraliza a ação. O dono da usina demite o antigo gerente, um tipo rústico e violento, irresponsável e maligno – um vilão, enfim. Contrata em seu lugar um jovem empertigado, que logo se apaixona pela filha do dono da usina. O namoro progride, mas o vilão quer se vingar do novo gerente e passa a tentar sabotar o romance e o cotidiano da usina. De quebra, o malvado persegue seu enteado (os créditos iniciais esclarecem: Pedro, o gerente demitido; Jorge, seu enteado ).


Jorge vive com o padrasto e com um sujeito beberrão, também funcionário da usina. O vilão, Pedro, tem o hábito de torturar o enteado, Jorge, desmanchando seu cabelo de forma violenta e até agredindo-o fisicamente. Mas Jorge recebe tudo de forma pacífica, sem revidar. Sua personalidade é a de rapaz sensível e introspectivo, que gosta de tocar violão e que se torna o melhor amigo de Luiz, o novo gerente, protagonista do filme.


A amizade de Jorge com Luiz é mostrada de forma pura e sem insinuações. Mas há quem considere que Jorge tem uma paixão platônica pelo amigo, sempre colaborando com as serenatas dedicadas à namorada de Luiz e demonstrando uma fidelidade que não suscitou nenhuma suspeita em 1928 – mas que, à luz dos códigos de hoje, pode significar um amor romântico. Jorge se arrisca para ajudar Luiz e o faz sempre com muita alegria, sorridente e desejando que o amigo seja feliz.


É impossível afirmarmos plenamente que Jorge seja um personagem gay. De qualquer forma, vale conferir o filme, disponível no canal Cinemateca Popular Brasileira: Filmografias & Cronologias, no YouTube. É estimulante pensar que Humberto Mauro, o grande pioneiro de nosso cinema, tenha sido também pioneiro ao criar esse personagem e orientar o ator Máximo Serrano (numa interpretação singela e carismática) nesse sentido. Fica a provocação.


Em tempo: em 1985, o cineasta Djalma Limongi Batista realizou BRASA ADORMECIDA, que faz uma discreta homenagem (na referência do título) ao clássico de Humberto Mauro. Continuem acompanhando esta coluna, pois vamos comentar também BRASA ADORMECIDA – que tem motivos irrefutáveis para estar nesta lista.



BRAZA DORMIDA

Diretor: Humberto Mauro

Brasil, 1928, 97 min


Onde ver: Cinemateca Popular Brasileira: Filmografias & Cronologias