Bixórdia destaca primeiro curta LGBT brasileiro, feito em 1968



LUFE STEFFEN


Contrariando nossas regras, a Bixórdia desta semana traz um curta-metragem em vez de um longa. A exceção se dá pois trata-se de um curta muito especial: é o primeiro curta brasileiro LGBT, e mais – é o primeiro curta-metragem registrado nos arquivos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.


Vamos para 1968. O jovem amazonense Djalma Limongi Batista ingressa na turma inaugural da faculdade de Cinema da USP e resolve realizar um pequeno e aparentemente despretensioso filme. Reúne alguns colegas de curso (entre eles, Aloysio Raulino, que faz a fotografia) e atores amadores (ou melhor, não-atores) e produz sua obra.


O filmete focaliza um jovem de família classe média, sem rumo, desempregado, que vaga pelas ruas do centro de São Paulo. A certa altura, conhece outro jovem, em plena Galeria Metrópole – espaço que, na década de 1960, foi um dos principais pontos de paquera de rapazes gays na cidade. Os dois se envolvem sexual e romanticamente, até que o novo personagem faz um pedido: que o outro o mate.


Ver o filme hoje, mais de 50 anos depois, é uma experiência e tanto. Fica fácil entender como o curta provocou polêmica, criando incômodo inclusive entre o meio acadêmico da USP, onde Djalma estudava. O jovem diretor inscreveu o filme no então badalado festival de curtas-metragens do Jornal do Brasil, e... venceu vários prêmios, incluindo melhor filme.


Em sua biografia, “Livre Pensador” (publicada em 2005 na Coleção Aplauso da Imprensa Oficial), Djalma detalha as turbulências do período. 1968, o famoso ano que não terminou, seria também marcante para ele. O escândalo provocado pelo pequeno filme fez com que Djalma ficasse para sempre rotulado como “cineasta gay”, o que gerou certa resistência entre os professores do curso de cinema da USP, e mesmo diante do mercado brasileiro cinematográfico nos anos seguintes – Djalma só estrearia em longas dez anos depois, rodando ASA BRANCA, UM SONHO BRASILEIRO, em 1979.


Sem dúvida o potencial homoerótico de UM CLÁSSICO... está visível no filme: desde a escolha de Eduardo Nogueira (que não era ator) para o papel central, revelando toda a beleza e sensualidade ingênua do intérprete; até as cenas onde a dupla de rapazes troca carícias que, para os padrões de hoje, são cândidas. Mesmo assim, para o Brasil de 1968, Djalma consegue insinuar uma cena de sexo oral, além de deixar claro do que estava falando (como no momento em que um dos rapazes comenta sobre “Free Again”, gravada por Barbra Streisand, uma “musiquinha completamente bicha!”).


Por essas e outras não é surpresa verificar que o filme foge da moda do Cinema Novo, então vigente no Brasil, e demonstra influências da Nouvelle Vague e do Free Cinema, bem como da contracultura que fervia no mundo, além de ajudar a deslanchar o Cinema Marginal (O BANDIDO DA LUZ VERMELHA, marco inaugural do movimento, também surge em 1968).


Ainda hoje, é um curta moderno em suas propostas de fotografia, montagem e uso de som – elementos que Djalma acentuaria em seu curta seguinte, O MITO DA COMPETIÇÃO DO SUL, rodado em 1969, no qual ele radicaliza ainda mais seu estilo e decide escancarar o homoerotismo, colocando Eduardo Nogueira (novamente seu muso) para dançar “Honky Tonk Women”, dos Rolling Stones, completamente pelado. Mas essa é outra história…


O que vale é ver ou rever este clássico UM CLÁSSICO..., que durante décadas ficou desaparecido e nunca encontrado na era das plataformas virtuais, mas que recentemente brotou no YouTube. Portanto, corram! Free again... Lucky, lucky me, free again…


UM CLÁSSICO, DOIS EM CASA, NENHUM JOGO FORA

Diretor: Djalma Limongi Batista

Brasil, 1968, 25 min


onde ver: YouTube