Bixórdia destaca precursor do Cinema Novo



LUFE STEFFEN


Eis um filme pouco lembrado hoje em dia, mas que se revela interessante numa revisão. Com ecos de OS BOAS VIDAS (Federico Fellini, 1953) e ROCCO E SEUS IRMÃOS (Luchino Visconti, 1960 – lançado no mesmo ano ), o único longa dirigido por Trigueirinho Neto é um autêntico representante daquele início de Cinema Novo – bebe na fonte do Neorrealismo italiano e já antecipa o movimento cinematográfico que marcaria o Brasil na década de 1960.


Ambientado em Salvador, o filme narra a saga de um grupo de jovens amigos desocupados, desempregados e envolvidos em pequenos crimes para ganhar a vida. O protagonista é Tônio (Jurandir Pimentel), rapaz que encontra uma solução temporária: ser acompanhante de uma mulher rica que tenta dominá-lo. Os outros integrantes da turma buscam encontrar, cada um, uma saída, um rumo na vida – embora as perspectivas não sejam animadoras.


E um deles, surpreendentemente (ou não), faz o mesmo que Tônio – mas a proteção virá de outro homem, um “pistolão”, como eles dizem. O personagem Crispim já é mostrado desde o início como um tipo diferente dos outros rapazes. Enquanto esses são rústicos, viris e quase selvagens, Crispim é delicado. Com um visual mais suave, de beleza mais clássica, modos educados e um certo ar aristocrático, ele surge sempre desenhando – pois é a profissão que tenta perseguir, a de artista plástico.


Os outros encorajam a carreira de Crispim, mas ele próprio diz que só conseguirá crescer nas artes se arranjar um “pistolão”, um mecenas. Essa representação do personagem como um jovem sensível, ligados às artes e ao mundo da cultura, parece de acordo com os códigos do que se esperava de um homem gay naquele momento. A interpretação do ator para o personagem Crispim é também bastante clara nesse sentido – quase efeminado, Crispim se move com gestos e movimentos totalmente diferentes do resto do bando.


Além disso, insinua-se um secreto caso sexual entre ele e outro integrante da turma, o personagem Pitanga – que acaba tendo de abandonar o grupo, pois está sendo perseguido pela polícia. Nesse momento, Crispim e Pitanga entram numa discussão violenta na frente dos outros, e Pitanga acaba expulsando Crispim, que sai do filme, para voltar somente no trecho final.


Quando volta, a situação é outra: Manuel (Geraldo Del Rey) procura Crispim na nova morada deste: um belo apartamento onde o desenhista está pintando e criando suas telas, muito satisfeito. Crispim mostra-se esnobe diante de Manuel, que veio pedir ajuda para tirar Tônio da cadeia (pois este também se envolvera em confusões com a polícia).


Crispim não ajuda, e no diálogo com Manuel revela que está muito bem, que encontrou um pistolão e em breve deve partir para o Rio de Janeiro para deslanchar sua carreira. Fica claro que o tal pistolão é um homem (que não aparece) que sustenta Crispim e proporciona os meios para que o rapaz enfim se dedique às artes.


Crispim mostra-se ainda magoado com sua antiga turma, já que ninguém o ajudou quando Pitanga (o suposto ex-amante) o expulsou do bando. Por que agora ele deveria ajudar Tônio?, indaga a Manuel. Frustrado, Manuel vai saindo. Crispim ainda convida o antigo amigo para permanecer: “Não vai ficar para a hora do café?” (seria uma tentativa de sedução?) Mas Manuel nem responde, e vai embora.


E assim, temos em BAHIA DE TODOS OS SANTOS um primeiro personagem gay masculino no cinema brasileiro de uma forma clara. Em nenhum momento é mencionada qualquer palavra explícita (homossexual, gay, bicha), mas para bons entendedores não é preciso palavra alguma. Apesar disso, não é um personagem tão importante, pois é um coadjuvante que não tem um desenvolvimento fundamental na narrativa. Digamos que seja um primeiro esboço – o primeiro personagem mais contundente nesse sentido será mesmo o engenheiro José Carlos, protagonista de O MENINO E O VENTO (1967), que em breve veremos nesta coluna.


Ainda assim, BAHIA DE TODOS OS SANTOS marca um ponto nessa trajetória de personagens LGBTs no cinema brasileiro, e de quebra ainda cumpre um papel relevante nesse retrato social neorrealista da época, amparado numa bela fotografia. O filme pode ser conferido no YouTube, embora com um grande problema: o som está praticamente inviável. O ideal seria o filme ser remasterizado. Um dia?...


BAHIA DE TODOS OS SANTOS

Diretor: Trigueirinho Neto

Brasil, 1960, 100 min


Onde ver: YouTube