O QUE VOCÊ QUEER traça retrato de jovem gay fora do padrão da beleza



LUFE STEFFEN


Na Bixórdia desta semana damos um tempo dos clássicos brasileiros e vamos para a Espanha analisar uma série que acaba de sair do forno: MARICÓN PERDIDO, que nos EUA recebeu o título de QUEER YOU ARE, e aqui no Brasil aparece como O QUE VOCÊ QUEER (???).


Poderíamos pensar por que os títulos internacionais não tentam se aproximar da espontaneidade do título original (que em português seria algo como BICHONA PERDIDA ou VIADO PERDIDO). Mas no Brasil de hoje seria pedir demais um título tão ousado. Então vamos ao produto em si. A propósito, a classificação indicativa é 16 anos.


A série é curta, tem apenas 6 episódios com cerca de 25 minutos cada – e isso é um trunfo, pois são episódios leves, gostosos de ver, e que passam voando. Talvez se fosse mais extensa acabasse sendo cansativa, pois a narrativa se estrutura num jogo de passado 1 / passado 2 / passado 3 que às vezes se desgasta.


Passado 1, Passado 2, Passado 3? É que a trama tem três momentos temporais: a década de 1980, quando o protagonista tem 13 anos de idade; algum momento na década de 1990 (quando ele está na universidade); e alguma parte dos anos 2000 (não fica muito claro...), quando ele já é um adulto, aparentando mais de 30 anos.


Para matar a charada basta pesquisar a vida do criador da série, pois ele é uma figura real e a série é bastante autobiográfica: Bob Pop nasceu em Madri em 1971 com o nome de Roberto Enriquéz. Então podemos concluir que a série se passa em 1984, em 1994 e em algum lugar pós-2004...


Bob Pop é uma figura célebre na Espanha. Ator, apresentador de TV, colunista de moda, blogueiro, escritor, roteirista de rádio & TV... uma presença multimídia. E a série MARICÓN PERDIDO é declaradamente inspirada em sua vida.


Então o que vemos é: o início de sua adolescência, quando o personagem é um garoto bem acima do peso, usa óculos, e que sofre bullying na escola – não apenas pela questão física, mas principalmente porque... é uma “maricona”, uma “bicha juvenil”. As relações conflituosas do garoto na família (o pai é um sujeito violento e intolerante; a mãe é uma figura enlouquecida, castradora e problemática; o avô é o único porto seguro de compreensão do menino), as dificuldades com o cenário adolescente do colégio, as descobertas do desejo sexual, enfim, todas as características típicas dos filmes e séries “coming of age”, de passagem para a vida adulta, estão lá – e essa é a melhor parte da série.


Entre outros destaques dessa etapa cronológica da história estão a deliciosa reconstituição de época do início dos anos 1980, e a interpretação cativante e corajosa do jovem ator Gabriel Sánchez.


Nas outras duas etapas temporais o protagonista é encarnado por Carlos González, que também apresenta um belo trabalho. Nessas fases da trama a vida sexual do personagem ganha mais destaque, afinal ele já é então um adulto. E aqui também surgem os itens típicos de inúmeros filmes e séries que retratam personagens gays fora do padrão de beleza vigente, ou marginalizados por alguma questão, e que portanto tem uma vida sexual “alternativa”: saunas, clubes de sexo, pegação em parques, etc. – o que nos leva também a situações de violência e exploração contra o protagonista Bob. Que apesar de tudo continua sonhando em encontrar um príncipe encantado.


Em todas as fases da série, portanto, nos deparamos com clichês já fartamente vistos em termos de narrativas protagonizadas por homens gays. A princípio isso poderia ser desanimador. Mas! Em tempos de representatividade eclética, é estimulante acompanhar a saga de um protagonista que é um gay obeso e que luta para encontrar seu lugar ao sol, em todos os sentidos – uma luta que vai se tornando mais árdua quando o personagem descobre ter uma doença degenerativa. Isso também é inspirado na vida real de Bob Pop, que atualmente se locomove em cadeira de rodas.


O resultado final, portanto, é de um produto que diverte, emociona e provoca inúmeras reflexões muito atuais. Como cereja do bolo, o clima geral da série é de uma coisa meio “almodóvariana”. Impressão reforçada pelo ritmo das atuações e da própria língua espanhola (me parece que ao vermos qualquer coisa espanhola que flerta com o kitsch, o camp e o pop, nos lembramos de Almodóvar). Temos ainda a atriz Candela Peña, que atuou em TUDO SOBRE MINHA MÃE (1999), e que na série faz a terrível mãe de Bob Pop. E por fim, o próprio Almodóvar! O cineasta interpreta a si próprio numa cena de metalinguagem no último episódio.


O QUE VOCÊ QUEER

onde: HBO Max