A CASA ASSASSINADA corrói os pilares da tradicional família brasileira



LUFE STEFFEN


Obra-prima do cinema brasileiro, A CASA ASSASSINADA (Paulo César Saraceni, 1971) é até hoje um filme misterioso, mergulhado numa irresistível bruma enigmática, como não poderia deixar de ser – seguindo a herança do livro no qual se baseia, “Crônica da Casa Assassinada” (1959), do escritor mineiro Lúcio Cardoso (1912-1968). Cardoso é um dos nomes mais importantes das letras nacionais, e “Crônica...” é considerada sua obra maior. Nela podemos identificar, talvez, uma espécie de projeção do autor: o personagem Timóteo. O escritor foi um dos pioneiros a abordar o tema da homossexualidade – retratando, de certa forma, a si mesmo. Em seus diários pessoais, o autor analisava sua própria vida sentimental, cheia de conflitos e contradições, incluindo a culpa católica. A sexualidade como tabu social é o grande combustível de Timóteo (no filme, interpretado magistralmente pelo ator Carlos Kroeber). Integrante do clã dos Menezes, uma família aristocrática e decadente que tenta resistir à destruição mantendo a imponência na fazenda onde reside, Timóteo pretende, justamente, destruir esse núcleo familiar. É a sua vingança por ter passado a vida trancado no quarto, escondido pelos conservadores irmãos. Timóteo se apresenta como um personagem travestido. Vive dentro do quarto, trajando os deslumbrantes vestidos que roubou da mãe falecida, ornado com as esfuziantes jóias da família, maquiado teatralmente, num ambiente fantasioso, como que parado num tempo nostálgico. Sua chance de conseguir agir para destruir a família surge com a chegada à fazenda de Nina (Norma Bengell), mulher livre, bela e sedutora, que acaba de se casar com um dos problemáticos Menezes. A aliança de Nina e Timóteo move a ação, no filme. São antológicas as cenas de cumplicidade entre os dois personagens, ambos simbolizando a beleza, a estética, o prazer, a liberdade, o desejo – ao contrário dos reprimidos e medonhos Menezes. “Essa família é muito feia!”, brada Timóteo, às gargalhadas, e Nina acrescenta “Horrenda!”, enquanto bebem taças de champanhe no barroco quarto dele. “Ah, eu amo a beleza!”, suspira ele na mesma cena. O grande clímax dessa amizade acontece na cena final, nos últimos minutos do filme, quando Timóteo e Nina se reencontram, já num outro contexto – seria imperdoável revelar esse desfecho, portanto apenas comento que a cena é mais um grande momento do personagem Timóteo (e de seu intérprete Carlos Kroeber), fechando o filme. Sobre a questão da representatividade gay, até hoje Timóteo é um personagem único no cinema nacional – não se encaixa em nenhuma das vertentes e variações com que personagens gays masculinos foram retratados em nossas telonas. Também não existe a preocupação em retratar uma questão social. Timóteo é um personagem tão peculiar e interessante que se mantém vivo a cada revisão do filme. Além da presença marcante desse personagem, A CASA ASSASSINADA resiste ao tempo colecionando trunfos como a fotografia espetacular de Mário Carneiro e a densa música composta por Tom Jobim, sem falar no elenco perfeito. Eu vi o filme pela primeira vez no início dos anos 1990, numa madrugada em plena TV Globo. Nos anos 2000, o longa frequentou outras madrugadas, no Canal Brasil – que mais recentemente remasterizou a obra. Essa versão está disponível no YouTube e vale ser (re)vista.


A CASA ASSASSINADA

Diretor: Paulo César Saraceni

Brasil, 1971, 103 min


onde: YouTube

 

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