Beleza e dor de Romy Schneider iluminam 3 DIAS EM QUIBERON


MARCELA MEDINA


Na primeira cena de 3 DIAS EM QUIBERON, uma criança corre com uma pipa. Em seu encalço, alguém que deve ser sua mãe participa das risadas e do afeto. É uma situação graciosa tanto quanto corriqueira, mas uma mulher observa enquanto fuma um cigarro, e não parece estar feliz. Logo saberemos que essa mulher é a atriz Romy Schneider e que o teor prosaico daquela interação entre mãe e filho pode parecer tão distante para ela como é insólita para nós, pessoas comuns, a vida idealizada no cinema e estampada nas páginas do jornalismo de celebridades.

Romy Schneider foi uma enorme estrela de cinema cuja vida seguiu o roteiro clássico das figuras que alimentam imaginários e vendem revistas. Começando aos 14 anos no papel da imperatriz da Áustria, ou “Sissi”, como era conhecida, enriqueceu, tornou-se um estrondo de popularidade e perdeu para sempre o direito de ser uma mulher como as outras. Colada à personagem, era idolatrada na mesma medida que desconheciam seu talento (sua “fuga” para a França foi em busca de trabalhos que valorizassem seu potencial dramático). Na intimidade, era devassada por fofocas envolvendo seus relacionamentos, sua condição de mãe, seu temperamento instável, sua ânsia de viver, sua beleza magnética e luminosa. Morreu cedo, deprimida e alcoólica.


O filme de Emily Atef reconstitui três dias de Romy Schneider em um spa na cidade de Quiberon, na Bretanha, acompanhada de uma amiga íntima e dois jornalistas. Ela está lá para descanso e desintoxicação. Os jornalistas, para a entrevista publicada na revista “Stern” que trouxe declarações de uma exposição visceral da vida e da intimidade da atriz. Partindo dessa estrutura, o que se passa na tela é uma demonstração do que a arte deve ser: no lugar da verdade, o verossímil; não aquilo que é (já temos a vida para isso), mas o que poderia ter sido. Dessa forma, com a entrevista como pano de fundo e material de base, 3 DIAS EM QUIBERON questiona a indústria de celebridades a partir do viés de crueldade demonstrado pela imprensa e sua postura cínica, que o público alimenta com sua disposição de aniquilar a pessoa do artista em nome de uma necessidade pela persona midiática. Com esse fim, uma câmera na mão, movimentando-se incessantemente entre Romy, seu inquiridor e o fotógrafo, afeta a força realística do cinema documental enquanto desnuda, no rosto belíssimo e já cansado da atriz, sua alma atormentada pela procura de si mesma – a mulher, a filha e a mãe, papéis escamoteados pela onipresença da função profissional em sua vida.

Marie Bäuer entrega uma performance extraordinária, que deixa evidente o encanto de Romy em um misto de ímpeto e fragilidade que a fazem oscilar entre a condição de vítima e de manipuladora. E se no primeiro momento nos deparamos com um rosto muito parecido com “a original”, pouco depois já acreditamos na ressurreição e podemos jurar que todo aquele enredo aconteceu exatamente daquele jeito. Porque, na verdade, isso não importa.


3 DIAS EM QUIBERON

Diretora: Emily Atef

Alemanha/Áustria/Beelgica/França, 2018, 115 min


Onde ver: Now


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