AS COISAS DA VIDA liberta Romy Schneider da imagem de Sissi



PEDRO MACIEL GUIMARÃES


Romy Schneider foi uma atriz aprisionada pelo mito de um personagem. Não que tenha sido a única a se tornar refém de uma imagem midiática e de um texto comportamental criado, à revelia do ator, por estúdios, produtores e realizadores que manipulam a persona do astro em prol do sucesso comercial de bilheterias. Antes dela, Marilyn Monroe, Rock Hudson e Brigitte Bardot viveram fenômenos parecidos de exploração do corpo e da subjetividade em nome do tão propalado star system.

A camisa de força que prendeu Romy Schneider chamou-se Sissi. Apenas com 15 anos, levada pelas mãos da mãe Magda para se tornar atriz de cinema, Schneider engatou três filmes sobre a vida da imperatriz austríaca e se tornou estrela de cinema antes de completar a maioridade. O sucesso mundial da trilogia foi instantâneo e a jovem Romy foi catapultada ao olho do furacão da indústria das celebridades mundiais do cinema e da moda. O modelo de comportamento da personagem (menina rica, virtuosa, bom coração) correu o mundo e até hoje, quando se fala em Romy, o personagem vem logo à mente. Alguns anos depois, ela formava o casal mais quente do mundo com Alain Delon, dentro e fora das telas, uma espécie de Brad Pitt e Angelina Jolie dos anos 1960.


Toda a década de 1960 foi motivada pelos desejos de Romy de se alforriar da imagem da princesa, ultrapassando as fronteiras do cinema comercial para trabalhar com cineastas reputados e de claras inclinações obscuras como Orson Welles e Henri-Georges Clouzot; com esse último aliás, num ensaio para filme, produziram um estudo de rosto de atriz mais alucinantes e vertiginosos já vistos, com o corpo de Romy recebendo uma saravaiada de luzes, sombras, maquiagens ousadas e movimentos óticos.


A libertação só veio mesmo nos anos 1970, com o encontro com Claude Sautet. A partir de AS COISAS DA VIDA, a parceria com Sautet proporcionou a Romy altos voos humanos e interpretativos. Ela demonstrou sua versatilidade para viver mulheres apaixonadas, sem ser extremamente romantizadas, para as quais a dimensão romântica não significava uma anestesia das dimensões sociais. Sautet levou sua filmografia sem nunca se filiar a escolas ou movimentos de cinema e construiu uma carreira de exímio diretor de atores e inventor de formas fílmicas populares e, ao mesmo tempo, muito elaboradas.


Em AS COISAS DA VIDA, ele permitiu a Romy demonstrar também sua veia de cantora, na célebre "A Canção de Hélène", dueto com Michel Piccoli, misto de “canção de texto” tipicamente francesa e balada melodramática de um casal em crise. A morte prematura, aos 44 anos, de modo repentino e violento, ajudou a construir o mito da estrela de vida fulgurante e infeliz, tornando-a objeto de culto mundial de cinéfilos e cineastas; culto esse de uma ordem distinta daquele proporcionada por Sissi, talvez até mais justa com seu grande talento e carisma de atriz.


AS COISAS DA VIDA

Diretor: Claude Sautet

França, 1970, 89 min


onde: Festival Varilux


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