ANDRÉ, A CARA E A CORAGEM traz imagens da moral brasileira sob a ditadura militar



LUFE STEFFEN


Narrada em tom de neo-realismo, mas com o colorido típico do Rio de Janeiro da época, a saga do adolescente André (Stepan Nercessian) é o tema do longa ANDRÉ, A CARA E A CORAGEM (Xavier de Oliveira, 1970), que chamou certa atenção no início dos anos 1970. Hoje um pequeno clássico poético, o filme anda quase esquecido. Mas vale a pena ser redescoberto.


André é um garoto que sai da cidade mineira de Carangola para tentar a sorte na capital carioca. Mas sorte é o que ele não tem, vagando de subemprego em subemprego, metendo-se em enrascadas e afundando-se na falta de perspectivas. O filme tenta mostrar, evitando o moralismo, quais as alternativas para um rapaz sem estudo e preparo técnico teria para ganhar a vida numa selva de pedra como o Rio de Janeiro. E as opções parecem ser aquelas que muitos filmes do cinema nacional costumavam apontar nos anos 1960, 1970 e até 1980: a prostituição.


Acidentalmente, André vira alvo de uma mulher rica e mais velha, que decide proteger o garoto em troca de sua companhia e, talvez, de favores sexuais. Esse trecho da história lembra PERDIDOS NA NOITE (1969), do cineasta gay John Schlesinger, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 1970. Mas André, apavorado, acaba fugindo da matrona.


Em outro momento o rapaz conhece o gerente de um banco, que claramente se mostra atraído por André e lhe oferece ajuda. O garoto se esquiva, mas no trecho final se rende: bate na porta do homem mais velho, que se revela, dentro de casa, um tanto afeminado, com toalha na cabeça e tudo. O gerente dá comida, abrigo e cama a André, mas se mostra respeitoso, dormindo numa ponta da cama, sem tentar nada, para espanto e alívio do rapaz.


O que fica sugerido é que o gerente não se aproveitou da vulnerabilidade de seu hóspede. Mas até quando André vai morar na casa do gerente sem ter que oferecer algo em troca?


A postura homofóbica do protagonista do filme poderia incomodar em tempos atuais. O auge dessa questão acontece em outro trecho. André vive num quarto alugado numa pensão decadente, e surge um novo companheiro de quarto: um rapaz visivelmente gay, que se insinua para André. De madrugada, quando André está dormindo, o moço tenta acariciá-lo. Mas André acorda e bota o rapaz pra correr, espancando-o, acordando os outros moradores. “Essa bicha tava me alisando!”, grita, enquanto um morador rústico consola a vítima das agressões: “Vem cá, dorme no meu quarto...”


É curiosa a abordagem que o filme traz desses dois personagens gays: o gerente do banco, um homem maduro, sisudo, com um bom emprego. Em casa, de noite, ele usa robe de seda e toalha na cabeça, além de ter seus gestos bem mais femininos do que no cotidiano bancário. É evidentemente um tipo solitário.


O outro, o morador da pensão, é um jovem afeminado, de cabelos longos, com olhar lascivo, e que tem a atitude predatória de tentar seduzir André, sem imaginar que seria vítima da violência do colega de quarto. Humilhado e surrado, vai com outro homem para outro quarto, numa atitude considerada típica das “bichas” sexualizadas.


Seria fácil atacarmos o filme hoje, dizendo que a representação desses personagens é nociva. Mas um olhar atento pode sugerir: o filme reflete a sociedade brasileira da época. A maneira como os homens gays eram vistos, e a maneira como de fato eles podiam existir, com poucas exceções e variações. Vale perceber que o filme também mostra outras possibilidades de tipos humanos existentes: malandros traiçoeiros, prostitutas decadentes, mulheres maduras frustradas, garotas pobres também sem perspectivas...


O retrato humanista (e realista) do filme assusta, mas ainda conserva certa beleza. Essa beleza poderia ser maior se tivéssemos uma cópia remasterizada do filme. Por enquanto, dá para ver em qualidade aceitável no YouTube, no canal da produtora Lestepe, que realizou este e outros filmes do diretor Xavier de Oliveira.


ANDRÉ, A CARA E A CORAGEM

Diretor: Xavier de Oliveira

Brasil, 1970, 85 min


onde: YouTube