Adaptações de NAVALHA NA CARNE expõem as contradições do desejo



LUFE STEFFEN


Na Bixórdia da semana passada revisitamos as duas versões de MATOU A FAMÍLIA E FOI AO CINEMA (Júlio Bressane e Neville de Almeida, 1969 e 1991, respectivamente ). Desta vez, vamos abordar outra dobradinha: NAVALHA NA CARNE (Braz Chediak e... Neville de Almeida, 1969 e 1997). Pelo jeito Neville gostou da ideia de recriar clássicos do nosso cinema.


No caso de NAVALHA NA CARNE, as versões cinematográficas bebem ainda numa outra fonte: o teatro. O texto do dramaturgo santista Plínio Marcos (1935-1999) foi um sucesso a partir de 1967, ano da primeira montagem teatral – em São Paulo, a peça trazia Ruthnéia de Moraes como a prostituta Neusa Sueli, Paulo Villaça como o cafetão Vado e Edgar Gurgel Aranha ( às vezes substituído por Sérgio Mamberti ) como o gay Veludo. A montagem carioca, na sequência, trouxe Tônia Carrero, Nelson Xavier e Emiliano Queiroz encarnando os personagens, respectivamente.


Apenas dois anos depois, em 1969, a montagem virou filme sob a direção de Braz Chediak. Glauce Rocha ganhou o papel de Neusa Sueli, Jece Valadão ficou com o papel de Vado, e Emiliano Queiroz permaneceu com a função de Veludo.


E é justamente Veludo que rouba a cena do filme. As presenças de Glauce Rocha e Jece Valadão são marcantes, mas Emiliano/Veludo consegue cativar todas as atenções a partir do momento que entra em cena. Um mérito que já começa no texto: o personagem Veludo é o mais interessante dessa narrativa, em que se estabelece um verdadeiro duelo a três.


Neusa Sueli é uma sofrida prostituta, já na casa dos 35, 40 anos (que por isso é constantemente humilhada por Vado, que a chama de “galinha velha” para baixo), que vive explorada pelo machista e brutal Vado (que cumpre todos os requisitos dos cafetões da dramaturgia mundial). Mas os dois se unem contra Veludo, um homossexual afetado que faz faxinas no quarto dividido pelo casal, dentro de uma espécie de cortiço. O motivo: Veludo teria roubado um dinheiro do quarto, enquanto fazia faxina.


Veludo é chamado para prestar contas, e nega o roubo. Durante toda uma sequência ele é torturado verbal e fisicamente por Neusa Sueli e Vado, que querem arrancar dele a confissão. O filme de 1969 não poupa o espectador, e assim a sequência se prolonga sem cortes, numa filmagem quase teatral, sufocada no quarto-cubículo, onde Neusa Sueli e Vado encurralam Veludo, que recebe tapas, chutes, xingamentos... Assistir a essa sequência hoje, 50 anos depois, é quase surrealista – talvez o filme não fosse aceito nos dias atuais, por reforçar a violência homofóbica – embora esteja, na verdade, denunciando em vez de endossando.


Mas após a sessão de agressões o clima muda. Veludo acaba confessando o crime, e os ânimos se acalmam. Veludo passa a se comportar de forma humilde, pedindo perdão pelo que fez, e aos poucos vai relaxando. Quando o espectador percebe, o personagem já recuperou sua malícia, sua malandragem, seu cinismo. E aí começa um jogo onde Veludo se alia a Vado e ambos se voltam contra Neusa Sueli.


Espantosamente (ou talvez nem tanto), Veludo seduz Vado, que parece cada vez mais balançado pelas investidas ambíguas do faxineiro, e o jogo entre eles se torna quase erótico, para desespero de Neusa Sueli, a grande excluída da história. Depois, ela consegue recuperar parte de seu poder nesse duelo, e expulsa Veludo do quarto. O trecho final é o acerto de contas entre o casal.


O filme de Braz Chediak, rodado em preto-e-branco com tintas bem realistas (quase Neorrealismo italiano), é de fato um teatro filmado. Poucos cortes, planos-sequência extensos, os atores seguindo à risca a marcação teatral dentro de um cenário mínimo – o quarto. Com exceção de algumas cenas na primeira parte do filme, que usam externas, a maior parte fica mesmo restrita ao quartinho. E nesse restrito espaço a atuação de Emiliano Queiroz revela-se rica em todas as suas nuances.


A versão de 1997, de Neville, também conta com um excelente ator encarnando Veludo: Carlos Loffler. Curiosamente, tanto Emiliano Queiroz como Carlos Loffler desempenharam diversos papéis gays em suas carreiras, sempre com brilho e ousadia – em épocas onde não era “moda” encarnar personagens LGBTs. Compondo o triângulo de personagens no remake estão ainda o ator cubano Jorge Perugorría como Vado e a diva Vera Fischer como Neusa Sueli – Jorge, por sinal, havia estrelado pouco antes o clássico gay cubano MORANGO E CHOCOLATE (1993, indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro na premiação de 1995).


Aqui, Neville cria suas habituais imagens delirantes (na mais famosa delas, Vera/Neusa aparece crucificada como Jesus Cristo), que causam impacto estético – como ocorrera em sua versão de MATOU A FAMÍLIA.... O diretor também aproveita para dar um respiro na narrativa e apresenta mais externas do que o filme original. O astro cubano Perugorría faz um bom trabalho, Vera Fischer exibe toda sua dimensão de diva, mas, à parte tudo isso, novamente é o personagem Veludo quem se destaca, na vibrante atuação de Carlos Loffler.


É curioso perceber que hoje, em pleno momento de empoderamento da comunidade LGBT e da quase obrigação de vermos personagens LGBTs “positivos” em obras dramatúrgicas, teatrais, audiovisuais, um personagem tão ambíguo e complexo como Veludo – que não é nenhum santo – consegue manter sua força e sua presença, sendo destaque num texto teatral clássico como “Navalha na Carne”.


Para refletir sobre, a alternativa é ver o filme de 1969, disponível no YouTube. A versão de 1997, infelizmente, está desaparecida do mundo virtual, num surpreendente descaso das plataformas. Alguém tem um VHS dele por aí?


NAVALHA NA CARNE

Diretor: Braz Chediak

Brasil, 1969, 90 min


Onde: YouTube