A RAINHA DIABA, quase 50, continua no trono, impávida e colossal



LUFE STEFFEN


Um dos filmes brasileiros mais ousados de todos os tempos, A RAINHA DIABA continua no trono, impávida e colossal. Quase 50 anos depois (foi filmado em 1973 e lançado em 1974) a obra permanece moderna e arrojada, mesmo porque se mostrou visionária, antecipando algumas tintas que Pedro Almodóvar usaria na Espanha da década de 1980 e outras que Quentin Tarantino espirraria no cinema norte-americano na de 1990 – se bem que, neste caso, Tarantino estava também celebrando a blaxploitation dos anos 1970 (movimento do cinema americano que propunha filmes realizados e estrelados por artistas negros). Portanto A RAINHA DIABA é um ponto fora da curva no cinema brasileiro, mas estava antenada com o que acontecia nos cinemas internacionais da época. Sem perceber, o filme também antecipava demandas hoje bastante atuais no cinema mundial, inclusive no brasileiro: por exemplo o empoderamento de protagonistas negros. Quando se fala nesse tipo de empoderamento, A RAINHA DIABA é insuperável: o personagem título é um poderoso chefe de uma quadrilha de traficantes de drogas. E esse chefe é um homem negro. Além de ser também uma bicha louca. Polêmicas à vista? No Brasil de 2022 o filme deve ser rejeitado por alguns setores da militância negra, da militância LGBTQIA+, da militância queer, do feminismo, entre outros grupos. Afinal, a Diaba é uma criminosa violenta e sanguinária – que dá pinta sim, que desmunheca, que ferve com as amigas, mas que também mata a sangue frio, manda matar, comete atrocidades bárbaras sem hesitar. E o que dizer das “diabetes”, o bando de bichas tão afeminadas e alucinadas quanto a Diaba, que se comportam de fato como um séquito real, fiéis à Rainha, inclusive na chocante cena em que o bando tortura a cantora de cabaret Isa? – uma sequência que pode facilmente ser acusada de machista e misógina aos olhos de hoje. Obviamente todas essas conotações não existiam quando o filme foi realizado. Ao ver ou rever o filme agora, as inevitáveis reflexões sobre gênero e questões sociopolíticas que hoje fazem parte do cotidiano surgem aos borbotões. Mas a obra se impõe e atropela todas essas indagações, pois o filme mostra-se tão forte e deslumbrante que o jeito é se render à estética, ao hedonismo, ao prazer que o cinema pode proporcionar. Então vamos aos prazeres: o ator Milton Gonçalves brilha do início ao fim vivendo a complexa, revoltante e fascinante Diaba, contracenando com um elenco também primoroso, onde se destacam Nelson Xavier, Stepan Nercessian (aos 20 anos), Yara Cortes, Wilson Grey e a veterana musa Odete Lara (que interpreta a cantora Isa, vítima da tortura na terrível cena citada). Sem falar no elenco de apoio, todo excelente, onde o bando de bichas seguidoras da Diaba rouba a cena. A direção de arte (cenários, adereços e figurinos) é um dos grandes trunfos do filme. Numa mistura do kitsch com o brega, do pop com o camp, o filme concebe um visual barroco que mescla diversas tendências da cultura do período – incluindo o glam rock ou glitter, que acabava de explodir na Inglaterra com David Bowie e afins, nos EUA com a banda Kiss e no Brasil com os Secos & Molhados e o cantor Edy Star. Desnecessário dizer que esse visual, já na época, tinha associação direta com o mundo gay – e aí vêm à tona outras referências, como a trupe teatral americana The Cockettes e, principalmente, os brasileiros Dzi Croquettes. A fotografia e a montagem do filme são outros grandes destaques, assim como a marcante trilha sonora, criando um clima de thriller policial que lembra muito alguns hits da blaxploitation, como SHAFT (1971). Mas tudo isso não faria sentido se o filme não tivesse a direção criativa de Antonio Carlos da Fontoura, que soube aproveitar todos esses trunfos e se apoiou num roteiro envolvente escrito por ele a partir de argumento do dramaturgo Plínio Marcos. Fontoura tinha dirigido seu longa de estreia, COPACABANA ME ENGANA (1968, um belo filme em PB), e decidiu na sequência fazer um filme sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Como ele próprio contou em entrevistas, o filme se chamaria A GUERRA DA MACONHA. Para criar a história, Fontoura convocou o santista Plínio Marcos. E Plínio se inspirou em personagens reais que conhecera no porto de Santos – entre eles, um chefe do tráfico que era sim negro e gay e atendia pelo codinome de Rainha Diaba… Sendo assim, ao contrário do que muita gente pensa, A RAINHA DIABA nada tem a ver com Madame Satã, lendário ícone da Lapa carioca – este foi registrado somente em 2002, quando Karim Ainouz dirigiu MADAME SATÃ, no qual Lázaro Ramos encarna a juventude do mitológico personagem. Quando se fala (bem ou mal) em bichas no cinema brasileiro, A RAINHA DIABA permanece insuperável.


A RAINHA DIABA

Diretor: Antonio Carlos da Fontoura

Brasil, 1973, 1h40


onde: YouTube