A guerrilha cinematográfica de Trevisan em ORGIA OU O HOMEM QUE DEU CRIA


LUFE STEFFEN


E lá se vão mais de 50 anos. Em pleno auge da ditadura militar no Brasil, o então jovem cineasta João Silvério Trevisan (hoje consagrado escritor) teve a audácia de realizar uma ação de guerrilha que não era a mesma praticada pelos grupos que lutavam contra o regime ditatorial: fez o filme ORGIA OU O HOMEM QUE DEU CRIA.


O longa tem como ponto de partida um jovem que vive numa cabana, em condições precárias, na linha de “Macunaíma” (livro de Mário de Andrade, de 1928, tinha virado filme em 1969, pelas mãos de Joaquim Pedro de Andrade – filme já comentado aqui na Bixórdia). O rapaz (vivido com espontaneidade juvenil por Pedro Paulo Rangel) mata o pai, leva uma pedrada da mãe, e sai pela estrada afora, em busca de…


Esse é o pretexto para Trevisan compor uma alegoria do Brasil. Ao longo das estradas brasileiras, o personagem vai encontrando diversos tipos folclóricos e simbólicos, ícones de instituições ou da marginalidade. Cada exótico personagem que surge vai se juntando a essa caravana do delírio, que num desfile quase carnavalesco continua peregrinando pelo coração do país.


E um desses personagens é uma travesti à la Carmen Miranda, vivida com brilho pelo ator Sérgio Bright. O ator, negro, encarna uma Carmen Miranda tupiniquim (já que a original, nascida em Portugal e consagrada nos EUA / Hollywood, acabou se tornando quase uma estrangeira em seu país do coração, o Brasil) que esbanja deboche e irreverência – num trabalho de composição reforçado pela voz: quem dubla a voz de Bright é o ator Marco Nanini (!!!). Posteriormente, Sérgio Bright encararia outros personagens LGBTs – ele atuou numa das célebres montagens teatrais brasileiras do texto gay americano “Os Rapazes da Banda”, de Mart Crowley (a montagem com Bright aconteceu em São Paulo, no Café-Teatro Gay Club, no Bixiga, em 1978).


Mas além dessa personagem travesti, ORGIA está impregnado de símbolos gays, relacionados ainda à contracultura e ao cinema marginal – Trevisan havia trabalhado em equipes de alguns longas do movimento, realizados no Centro de São Paulo. Por isso mesmo, Trevisan fazia questão de provocar o canônico movimento do Cinema Novo, liderado pelo cineasta baiano Glauber Rocha. Reza a lenda que Glauber ficou enfurecido ao ver ORGIA – entre outras razões, pelo filme fazer uma paródia direta de DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1964), na figura de um cangaceiro grávido…


Num verdadeiro caldeirão tropicalista e antropofágico, o diretor realizou um filme que é descaradamente subversivo – não foi à toa que a película acabou censurada pela ditadura, e Trevisan partiu do Brasil. Sua peregrinação pelo exterior na primeira metade dos anos 1970 fez com que, na volta, Trevisan agisse de forma ainda mais ousada: foi um dos fundadores do Somos, em 1976, 1º grupo de militância gay do Brasil, e também do Lampião da Esquina, primeiro jornal gay do Brasil, em 1978.


Nos anos seguintes, Trevisan (hoje aos 77 anos) se consagraria como escritor, com destaque para obras explicitamente gays e/ou LGBTs: “Devassos no Paraíso”, “Em Nome do Desejo”, “Seis Balas num Buraco Só”...


Em 2017, Trevisan comentou com detalhes os bastidores de ORGIA, em entrevista audiovisual gravada e concedida a mim para o longa-metragem CINEMA INTRUSO – documentário que narra a saga dos cineastas pioneiros na temática LGBT no cinema brasileiro. Além de Trevisan, estarão no filme as pioneiras Rita Moreira (primeira videomaker do Brasil) e Adélia Sampaio (realizadora, em 1984, de AMOR MALDITO, primeiro longa focado na temática lésbica no Brasil), e diretores como Antônio Calmon, Antônio Carlos da Fontoura, Ícaro Martins. O grande cineasta Carlos Hugo Christensen (argentino radicado no Brasil, morto em 1999) também será analisado, assim como o diretor Djalma Limongi Batista, diretor do primeiro curta gay brasileiro, UM CLÁSSICO, DOIS EM CASA, NENHUM JOGO FORA (1968), já analisado na Bixórdia.


Enquanto CINEMA INTRUSO não vem, e portanto não podemos ver o que Trevisan comentou, vale rever ORGIA OU O HOMEM QUE DEU CRIA, que continua dando crias.


ORGIA OU O HOMEM QUE DEU CRIA

Diretor: João Silvério Trevisan

Brasil, 1970, 97 min


onde ver: YouTube



Trailer