Festival Latino exibe ÊXTASE, filme sobre agonia das reféns de padrão estético



MARCELA MEDINA


“Quanto menos eu como, mais eu tenho força.” A voz em off é de Clara, protagonista de ÊXTASE, que narra sua própria história de convivência com a anorexia. Nesse momento, a declaração soa como um manifesto em defesa do transtorno que a levou à UTI de um hospital e motiva milhares de pessoas mundo afora a expor os danos dessa doença e sua capacidade de matar mulheres jovens em nome de um padrão estético massificado. A frase enunciada por Clara, porém, lança luz sobre uma verdade obscura que norteia a relação entre doente e doença: a força de Clara não provém do corpo que definha, mas da mente que o subjuga. É o espírito que vive a anorexia como experiência estética. ÊXTASE é sobre isso.


Em entrevista, a diretora Moara Passoni afirmou que, ao abordar suas próprias experiências com transtorno alimentar, não desejava assumir tons sensacionalistas na exposição dos corpos, como é o costume quando se fala em anorexia. Moara propõe um olhar de dentro para fora, em que é possível acompanhar a perspectiva do anoréxico no cultivo de seu transtorno. Nesse sentido, existiria uma estética da plenitude a partir da qual o olhar do doente sobre a doença não imporia, em sua lógica interna, uma relação de assujeitamento.


Ao contrário, haveria um nível de consciência sensorial capaz de reconhecer que o corpo está à mercê do desejo. Controlar o desejo, ao ponto de suprimi-lo, passaria pela negação da fisicalidade e consequente aniquilação do corpo concreto. O anoréxico recusa a comida em nome da plenitude vislumbrada na vida sem corpo. Ele cultiva um espírito de ascese que busca a beleza da onipotência experimentada por quem não precisa de mais nada, nem de mais ninguém.


Apresentar a anorexia como gesto estético poderia soar irresponsável e alienado. Conceber um filme sobre transtorno alimentar “sem corpo”, como propõe a diretora, traria o risco de minimizar a gravidade do problema e, até, recobri-lo com uma aura cool. Mas Moara Passoni escapa dessas armadilhas de forma inteligente, com um trabalho de edição que transforma o olhar de sua personagem em idiossincrasia, permitindo ao espectador acompanhar sua escalada, digamos, “poética” como uma viagem rumo ao isolamento e consequente incapacitação de se relacionar e de enxergar o mundo a sua volta.


Nessa direção, a narrativa fluida de ÊXTASE flerta com a ironia em movimento redentor para os doentes, que em geral são vistos como gente insegura e manipulada pelo padrão de beleza midiático. Ao contrário, o que vemos no longa é um olhar generoso sobre um tipo de sofrimento mental que impede a distinção entre delírio e realidade.


A escolha pela subversão da linguagem documental, em narrativa que mistura ficção e não ficção, reforça esse elemento fundamental da anorexia, pois, assim como Clara habita um mundo pessoal confuso e isolado, nós, espectadores, nunca sabemos a que estamos assistindo. É aí que acontece o pulo do gato, pois é desse artifício que flui a identificação afetiva com Clara e, por extensão, com as vítimas de transtornos mentais. E é isso, também, que mobiliza a uma discussão mais abrangente sobre do que o cinema é capaz.


ÊXTASE Diretora: Moara Passoni Brasil/EUA, 2020, 80 min


Onde: Festival de Cinema Latino

até 17/12

grátis