20 filmes para conhecer o cinema de François Truffaut, 90


Ranking e comentários de Peter Bradshaw (crítico do jornal “The Guardian”).



20. O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (1977)

Esta comédia mundana de amor é um exemplo de como Truffaut sempre aspirou a algo mais alegre, com um leve toque lubitschiano. Mas se trata de um trabalho muito datado dos anos 1970, que celebra, de modo descuidado, a maneira masculina de conquistar (foi feita uma refilmagem hollywoodiana dirigida por Blake Edwards com Burt Reynolds). Charles Denner interpreta Bertrand, um cara que ama todas as mulheres com paixão, como um especialista ou colecionador. Em seu funeral, a cerimônia fica abarrotada com suas conquistas.



19. OS PIVETES (1957)

Este curta foi o primeiro trabalho sério de Truffaut (se não levarmos em conta seu primeiro curta exercício, UNE VISITE). O filme de 18 minutos demonstra surpreendente confiança e maturidade em quase todos os temas em que Truffaut se baseia: a inocência e a culpa na infância, o amor juvenil (ou da adolescência), o mistério assustador do sexo e a glória do próprio cinema. Durante um verão tórrido, cinco garotos malcriados estão brincando – e começam a espionar uma jovem mulher (interpretada por Bernadette Lafont, futuro ícone do cinema francês, em seu primeiro papel) e seu namorado. Mas o jogo tem uma reviravolta..



18. O AMOR EM FUGA (1979)

As aventuras de Antoine Doinel, alter ego de Truffaut, chegam ao fim neste quinto e último filme da série Doinel – depois de OS INCOMPREENDIDOS (1959), o curta ANTOINE E COLETTE (1962), BEIJOS ROUBADOS (1968) e DOMICÍLIO CONJUGAL (1970), que reaparecem na forma de lampejos de memória como pequenos trechos e cenas. Doinel é agora um cara de 30 e poucos anos que está se divorciando de sua esposa e se atormenta com obsessões vertiginosas por uma mulher muito parecida com a ex. A atuação de Jean-Pierre Léaud é enigmaticamente reservada e de alguma forma parece ter envelhecido cedo, mas também parece congelada na juventude, no momento em que ele se tornou famoso.



17. FAHRENHEIT 451 (1966)

Truffaut não tinha afinidades com a ficção científica – talvez sua contribuição mais notável para o gênero tenha sido sua participação como ator em CONTATOS IMEDIATOS DO TERCEIRO GRAU, de Spielberg. É preciso dizer, porém, que este filme – embora muito discutido à sua época e fundamental por ter feito o romance de Bradbury conquistar o status de clássico – pode não ter envelhecido tão bem. Em uma futura distopia onde toda leitura é proibida, um bombeiro cujo trabalho é incinerar livros se apaixona por uma professora que possui uma cópia secreta das Memórias do duque de Saint-Simon. O resultado range um pouquinho.




16. AS DUAS INGLESAS E O AMOR (1971)

Um filme de época, estrelado por Léaud em um papel que não é Doinel, baseado em um romance de Henri-Pierre Roché, autor de “Jules e Jim”, outra história de triângulo amoroso sobre as dores de um amor dividido. Léaud é Claude, jovem crítico de arte francês fascinado por uma jovem inglesa em Paris, Anne (Kika Markham). Ela o apresenta a sua irmã, que instantaneamente se apaixona por Claude. O uso da voz over dá um tom delicado e elegíaco a esta história envolvente sobre sentimentos e os mistérios do coração.



15. A SEREIA DO MISSISSIPI (1969)

Outro filme de Truffaut baseado em um romance policial americano – neste caso, de Cornell Woolrich, autor do livro “Janela Indiscreta”, adaptado por Hitchcock. Jean-Paul Belmondo interpreta um rico fazendeiro de tabaco que coloca um anúncio à procura de uma noiva e fica encantado com a mulher que consegue, interpretada por Catherine Deneuve, embora esteja convencido de que não foi esta a pessoa que respondeu ao anúncio. O desfecho mostra o prazer brincalhão e alegre de Truffaut com as convenções do suspense.




14. A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (1975)

Um filme inusitado no cânone de Truffaut, pois é um drama de época com sabor literário e tão próximo do antiquado “cinema de papai”, que Truffaut ridicularizou num artigo que o tornou célebre quando ainda era só um crítico de cinema. Isabelle Adjani estreia aos 20 anos como Adèle, vivendo na década de 1860 com seu pai famoso, o escritor Victor Hugo, na ilha de Guernsey, onde nutre uma obsessão romântica, ao estilo de Thomas Hardy, por um oficial do exército britânico interpretado pelo belo Bruce Robinson. Uma história desoladora de um amor maldito, que Truffaut reveste com mistério e tragédia.




13. O GAROTO SELVAGEM (1970)

Talvez o mais próximo que Truffaut tenha chegado do cinema de confronto ou de choque, O GAROTO SELVAGEM foi sem dúvida um precursor de O ENIGMA DE KASPAR HAUSER, de Herzog. Extraído de uma história sensacionalista e mitificada da França do século 18, o filme reconstitui o caso de um “menino lobo” que é descoberto vivendo uma existência selvagem na floresta. Um médico se encarrega de mostrar ao menino a influência civilizadora da educação. Jean-Pierre Cargol interpreta Victor, o menino selvagem, e o próprio Truffaut interpreta o médico. O filme devolve Truffaut ao seu tema principal: a vulnerabilidade e a intensidade da infância.




12. A MULHER DO LADO (1981)


Um melodrama fumegante, quase um thriller erótico, evidentemente inspirado em Tristão e Isolda, que na época parecia não ter a obliquidade e a leveza do toque que caracteriza o melhor de Truffaut. Gérard Depardieu interpreta um feliz homem provinciano casado que fica surpreso quando uma ex-amante - Fanny Ardant -, agora casada, se muda para a casa ao lado. O relacionamento deles tinha sido doloroso e tempestuoso e, claro, logo reacende em segredo, levando à calamidade e à violência.




11. A NOIVA ESTAVA DE PRETO (1968)

Outra joia lúdica de Truffaut, novamente baseada num romance de Cornell Woolrich: um thriller de vingança que prenuncia KILL BILL, de Tarantino. Truffaut criou um grande papel para Jeanne Moreau como a esposa cujo marido foi morto a tiros no dia do casamento – e que se vinga eliminando o assassino e seus quatro comparsas, incluindo Michel Bouquet e Michael Lonsdale. O crime original foi deliberado ou um acidente? Não importa. O fascínio está no método serial-killer dela, seguindo uma lista de culpados e obtendo satisfação, mesmo depois de ser detida e enjaulada.




10. DOMICÍLIO CONJUGAL (1970)

Quarto filme da série Doinel e talvez o mais estranho ou o mais triste. Antoine e sua esposa, Christine, estão vivendo juntos como marido e mulher. Claro que Antoine vai se perder após o casal ter um filho, e começa um caso com uma japonesa, Kyoko (interpretada pela modelo Hiroko Berghauer, que veste figurinos criados pela empresa de design do marido). O trabalho de Antoine nesta fase é tingir cravos para floriculturas. Poderia haver símbolo mais preciso da futilidade superficial da arte?


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9. O ÚLTIMO METRÔ (1980)

Um dos maiores sucessos comerciais de Truffaut – uma tragicomédia ambientada na Paris ocupada de 1942, onde a população economizava nas contas de aquecimento lotando teatros e cinemas antes de pegar o último metrô para casa. Uma companhia de teatro, com Catherine Deneuve como protagonista e Gérard Depardieu como a nova jovem estrela, acredita que o espetáculo deve continuar, apesar da opressão nazista – e o diretor judeu está escondido no porão do teatro de onde orienta, em segredo, as produções. Os atores têm de enfrentar um crítico temido – um odioso colaborador antissemita chamado Daxiat, inspirado no jornalista pró-nazista Alain Laubreaux, que existiu de fato. A ideia do diretor escondido no porão, um artista trabalhando em segredo, reprimido pelo destino, não está tão longe do personagem de Charles Aznavour em ATIRE NO PIANISTA.


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8. BEIJOS PROIBIDOS (1968)

Uma joia do último período da nouvelle vague; cinema espirituoso, volúvel e elegante, autoconsciente da maneira mais alegre, às vezes melancólico e pálido. Com suas referências aos acontecimentos da época e aos protestos contra a destituição de Henri Langlois da direção da Cinemateca Francesa, este poderia ser o filme mais godardiano de Truffaut. Antoine Doinel deixou o exército e agora é um desajustado pensativo que em pouco tempo é contratado e demitido de uma gama bizarra de empregos, como detetive particular e reparador de TV. Ele começa a se apaixonar por Christine, uma jovem interpretada por Claude Jade, mas também tem uma experiência sexual ridícula com a esposa de seu patrão, interpretada de modo vamp por Delphine Seyrig. A vida de Doinel está agora na fase da comédia romântica.


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7. O QUARTO VERDE (1977)

Certamente um dos filmes mais estranhos e marcantes de Truffaut, atípico, mas também intensamente pessoal e apaixonado – baseado em Henry James. O próprio Truffaut interpreta Julien, um veterano da Primeira Guerra Mundial, que trabalha em um jornal escrevendo obituários e é obcecado pela morte – a morte em ação de seus companheiros de guerra, cujo destino ele não merecia evitar, a morte de mais e mais e mais contemporâneos seus e, principalmente, a morte de sua esposa, para a qual ele mantém um santuário em sua casa. Um incêndio desastroso leva Julien a conhecer uma certa jovem, Cécilia, interpretada por Nathalie Baye, com quem o amor e a morte se fundem em uma espécie de redenção oculta.




6. NA IDADE DA INOCÊNCIA (1976)

Truffaut retorna com paixão ao tema da infância, mas aqui não é vista pelas lentes do passado: a vida dessas crianças aqui acontece nos dias de hoje. Há um conjunto de crianças e adolescentes sofrendo abusos, solidão e vergonha, mas também experimentando diversão com rebeldia e o primeiro amor. É um filme episódico que nos dá pequenos vislumbres de vidas, às vezes descaradamente melodramáticos ou sentimentais, às vezes descontroladamente implausíveis, mas esses elementos cômicos compensam a dor brutalmente real que tinge o filme como mármore.




5. UM SÓ PECADO (1964)

O drama de amour fou de Truffaut é provavelmente sua representação mais adulta do amor e do sexo: um filme dirigido com suavidade, sutileza e profundidade – apesar da natureza levemente absurda ou melodramática da história. Jean Desailly interpreta uma celebridade literária chamada Pierre Lachenay que vai a Lisboa para dar uma palestra sobre Balzac e tem um caso apaixonado com Nicole, uma aeromoça (como as comissárias de bordo eram curiosamente chamadas na época) que está hospedada no mesmo hotel – interpretada por Françoise Dorléac. À medida que o caso obsessivo avança, a sensualidade se transforma em comédia e farsa. A princípio frágil e elegante, o caso torna-se irresistivelmente terno, pois ambos revelam sua vulnerabilidade.




4. ATIREM NO PIANISTA (1960)

O filme que sucede a OS INCOMPREENDIDOS é baseado no romance de David Goodis e mostra o amor extravagante de Truffaut pela literatura noir americana – um artigo de fé fundamental para a nouvelle vague francesa. Charles Aznavour interpreta Charlie, o pianista em um mergulho desprezível. Seu nome na verdade é Edouard Saroyan, um pianista clássico internacionalmente conhecido que abandonou sua brilhante carreira por causa de um terrível segredo, e agora ele se confunde com a vida do crime devido às atividades nefastas de seu irmão, que tem o nome marxista de Chico, interpretado por Albert Rémy, robusto figurante de Truffaut. A cena em que dois mafiosos sequestram Charlie e sua namorada Léna (Marie Dubois) e começam a fofocar entre si é hilária – especialmente quando um confessa que costumava usar a calcinha de seda da irmãzinha quando menino. E o estranho tom truffautiano de inocência inesperada surge quando um estranho diz a Chico: “Há mais virgens aqui do que em qualquer outra cidade”.



3. A NOITE AMERICANA (1973)

Muitos filmes são considerados cartas de amor ao cinema, mas o primeiro tem de ser essa comédia vulgar, em francês intitulada A NOITE AMERICANA, termo que designa o filtro de lente usado para fazer uma cena diurna parecer noite. Esta é a história farsesca e até maluca de uma filmagem. Truffaut interpreta o diretor, que contratou uma estrela difícil de Hollywood, chamada Julie Baker, interpretada por Jacqueline Bisset. Seu protagonista, interpretado inevitavelmente por Jean-Pierre Léaud, tem sua noiva contratada para a equipe, mas ela está prestes a fugir com um dublê britânico. Como Fellini, Truffaut ama a intensidade dos amores e amizades em um set de filmagem, em comparação com as quais as reivindicações das famílias e dos cônjuges são muito monótonas. Mesmo as longas demoras e as frustrações das filmagens têm uma forma e um propósito dramáticos que faltam no deserto monótono e confuso fora do estúdio. O cinema é como a vida real, só que melhor.




2. OS INCOMPREENDIDOS (1959)

A maravilhosa estreia autobiográfica de Truffaut guarda um frescor e uma franqueza sublimes. Com ela, teve início sua colaboração vitalícia com Jean-Pierre Léaud, ator mirim que ele criou como uma versão de si mesmo, sempre fundindo sua própria persona com Léaud na mente do público e também talvez na mente de Léaud. Antoine Doinel, de 12 anos, era, como Truffaut, um delinquente, um garoto infeliz de um lar conturbado. Ele rouba coisas e dorme nas ruas, perambulando por Paris com seu colega. No final, Truffaut nos oferece a sequência imortal em que Antoine corre para a praia, sem nunca ter visto o mar, o quadro final congelado mostrando o rosto infantil a ponto de se tornar um homem.


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1. JULES E JIM - UMA MULHER PARA DOIS (1962)

O eterno triângulo amoroso parece estar acontecendo no presente dos anos 60 (como o trio de Godard em BANDE À PART), mas na verdade se passa antes e depois da Primeira Guerra Mundial. Oskar Werner é Jules, jovem austríaco tímido que vive na Paris de 1912. Ele faz amizade com o francês mais mundano Jim, interpretado por Henri Serre. Ambos os homens se apaixonam pela mesma força boêmia e bela da natureza: Catherine, interpretada por Jeanne Moreau, tendo se convencido de que ela se assemelha a uma bela escultura grega que eles viram. Quando a guerra começa, Jules e Jim devem lutar em lados opostos. JULES E JIM é uma história de amor queer secreta? Ou a amizade deles é uma fábula antibélica, na qual Catherine simboliza o que eles têm em comum? O amor e o destino dependem de algo tão aleatório quanto um encontro perdido? Catherine está ausente do título, mas ela domina o filme.


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